Etica9

Como avaliamos um profissional através de números?

Esta pergunta pode ser respondida por gráficos, tabelas, metas atingidas etc. Por estes índices podemos averiguar sua produtividade e efetividade. As grandes e médias empresas utilizam métodos quantitativos neste processo, mas muitas vezes se esquecem de avaliar seus empregados através de uma metodologia qualitativa: a ética.

O modelo de negócio estabelecido no mundo caracteriza-se por atingir metas. Tais metas significam vendas. Vendas são o motor do negócio. Mas, um mundo em crise significa menos vendas. Menos vendas significam menos metas atingidas. Menos metas atingidas significam mais demissões. Mais demissões significam menos poder de compra. Menos poder de compra significa menos vendas. Menos vendas significam menos metas atingidas. Menos metas atingidas… Entendeu? É um ciclo. O eterno retorno da crise financeira.

E a empresa? E a corporação? E a organização? E o empresário? Onde fica o empresário do meio de produção? Fica preso em uma cilada. Se investir e a crise piorar ele pode quebrar a empresa. Se não investir e a crise terminar, ele estará atrasado para o mercado de demanda. Então, o que ele faz? Investe no mercado financeiro, compra ouro, ações, dólar, títulos, coloca o dinheiro debaixo da cama, paraíso fiscal… Investe o mínimo na empresa, ou nada, e demite parte do capital humano para não cortar na própria carne. E volta o ciclo. O eterno retorno de manter o establishment.

E o trabalhador? E o funcionário? E o colaborador? E o participante? Onde fica o participante do meio de produção? Fica preso em uma cilada. Se atingir a meta, mesmo em crise, pode ser demitido. Se não atingir a meta é bem provável que seja demitido. Então, o que ele faz? Ele mete a faca nos dentes, faz correr o sangue, vara noites, fins de semana, viagens, emails, whatsapp, relatórios, apresentações no Powerpoint, faz de tudo para atingir a meta. E aí, ao atingir, vai pra casa com seu salário magro, mas pensa “melhor que nada”. E, o pior é que ele está certo. Pouco é melhor que nada. Estar empregado é melhor que estar desempregado. Ainda mais em momentos de crise, demissões em massa e arrocho salarial. Essa é a regra do jogo: ou vai ou racha! E o que arrebenta é a tua tampa da caixa…

De manhã, ele se levanta volta cedo ao trabalho. Mais metas para serem atingidas, mais pressão, mais números, mais gráficos, mais noites sem dormir para terminar o relatório. Se precisar ele passa por cima de tudo e de todos para cumprir a meta, pois ele assumiu a meta. E uma meta dada é uma meta cumprida. Mas por fim, ele vai sendo consumido, sugado por um mundo que não é o dele. Já não tem tempo para a família, para os amigos, para o lazer. Férias são reduzidas e mesmo nas férias ele fecha negócios.

Mas ele é o cara! Ele atingiu a meta! Vai ganhar um bônus! Uma batedeira novinha! Uma geladeira! Um boné! Uma viagem! Uma placa! Um parabéns! Um destaque! Uma foto no mural! Tapinha nas costas! E volta pra casa com seu salário magro e pensa: “que legal, eu sou o cara, mas bem que eu podia ganhar uma promoção, uma salário melhor ou até mais participações nos resultados, quem sabe virar sócio… Mas, pensando bem, melhor que nada.”. E volta o ciclo. O eterno retorno do medo de perder o emprego e ser resiliente.

E um dia, ele acordará e perceberá que fora demitido, ou que se aposentara. Não fará mais parte do time, da equipe, da turma, do departamento. Ele terá apenas remédios para comprar, contas para pagar e uma homenagem emoldurada ou uma placa na parede. E volta o ciclo. Mas agora, já não terá medo de perder o que não tem. Terá apenas arrependimentos.

Então, neste momento, retorno à pergunta inicial: como avaliamos um profissional através de números?

Profissionais não são números, são pessoas. Eles não deveriam ser avaliados por metas atingidas, gráficos de produtividade, linhas de código produzidas, páginas digitadas, índices computáveis, ou quaisquer outros processos quantitativos de avaliação. Antes de tudo, elas devem e podem ser avaliadas por sua conduta, por seu compromisso, por seu esforço, por seu respeito, por sua liderança ou até mesmo por sua submissão. Ou seja, por suas atitudes e ética. As metas são só metas. Vendas são só vendas. Linhas de código são só linhas de código. Pois, afinal, sempre teremos outras metas, vendas e linhas de código para conquistar. Pessoas, não. Pessoas são para manter, abraçar, ajudar, colaborar, levar junto, estabelecer relacionamento, união.

Estamos longe de termos uma sociedade mais ética, mais justa e fraterna. Uma sociedade menos pensada no mercado e mais pensada no ser-humano e nas suas relações seja com o trabalho, com a natureza, ou entre nós mesmos. Estamos longe, mas um sonho não sonhado nunca se transforma em realidade.

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Victor Vargas

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