Crítica à Praxeologia

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Tudo começou com uma publicação de um evento sobre a Escola Austríaca no grupo da UDESC. Fui provocado a dar uma posição crítica à praxeologia. A praxeologia não é uma ciência. Mas, seus defensores querem crer que seja. É quase uma religião, pois querem também nos empurrar goela abaixo.

Porém, iniciarei me apresentando. Para quem não sabe, fui estudante na UDESC na década de 90 e professor substituto na década seguinte. Dei aulas de programação em C e fui orientador de trabalhos acadêmicos. Portanto, não sou formado em economia, ciências sociais ou política, muito menos sociologia ou filosofia. Sou formado em Processamento de Dados. Especializado em Gestão de Projetos. Sou empreendedor, professor, analista de sistemas, programador. Trabalho, sempre que posso, em ações sociais. Sou também um apaixonado por conhecimento e, leio e estudo tudo nas áreas sociais, econômicas, políticas e filosóficas. Ao ler, formulo melhor minhas opiniões. Analiso e critico com argumentos válidos.

Antes da crítica propriamente dita à praxeologia, é importante uma revisão histórica do que ocorreu e me motivou a escrever este texto. Li o livro “Ação Humana” de Ludwig von Mises há cerca de um ano e pouco, e como não sou um historiador ou metódico no sentido acadêmico, não fiquei marcando passagens ou criando resenhas. Apenas o li para entender melhor o liberalismo. Inicialmente eu comecei a ler Adam Smith, mas seu livro “A Riqueza das Nações” é tão antigo e obsoleto que procurei um livro mais atual e, o livro de Mises, me pareceu mais relevante.

Li-o em pouco mais de um mês. A leitura é fácil, apesar de suas mais de mil páginas. O autor passa a maior parte do tempo tentando desqualificar o historicismo e o socialismo e, relatando como seria a sociedade perfeita através do livre mercado e estado mínimo. Hoje, estou terminando de ler o livro de Smith, pois este é considerado o pai do Liberalismo, então, por mais ultrapassado que seja seu livro, ele possui um conteúdo histórico que não deixarei de obter. Não irei aqui neste relato, mencionar ou defender o Comunismo, Socialismo ou escritores como Marx ou outros filosóficos ou sociológicos. Irei me restringir às máximas da praxeologia do liberalismo clássico de Mises. Não li os outros autores da Escola Austríaca. As críticas ao comunismo e ao socialismo eu as farei em outro artigo.

O liberalismo defendido por Adam Smith teve sua época e sua razão de ser. Não irei comentar a respeito de “A Riqueza das Nações” porque ainda não o li por completo. Estou iniciando o livro II. O caso aqui é, comentar sobre a praxeologia de Mises em “Ação Humana”. Como eu o li faz mais de um ano, precisei revisitá-lo para escrever este artigo. Dada esta introdução, irei me posicionar exclusivamente sobre o livro de Mises e sua “praxeologia”. E, para efeitos práticos e, para que este artigo não se torne um tratado, irei me restringir a apenas ao tema levantado e questionado para mim pelo sr. Marcos Valadares.  Ao final da crítica, irei comentar de forma civilizada, como sempre faço, as tentativas feitas por este sr. de me desqualificar.

Por definição, liberalismo tem a ver com liberdade. Como sou adepto da liberdade, gosto do liberalismo neste termo. No termo da minha vida pessoal. Na minha vida particular eu sou liberal. Dei uma educação liberal às minhas filhas, sem deixar, é claro, de pontuar seus deveres e direitos, bem como analisar, se compadecer com os mais necessitados e atuar fortemente nos aspectos sociais de nossa comunidade.

Agora vamos ao campo social, ao Estado. Vamos falar do liberalismo clássico na área comum, na sociedade. Na relação entre empresas e comunidade. Aí sou um crítico do liberalismo. Mas, ainda sim, consigo enxergar e até concordar com boas ideias de desregulamentação, por exemplo, para micro e pequenas empresas, e trabalhadores em geral (FGTS e INSS). Para proteger este nicho de empresas e trabalhadores, o liberalismo é uma doutrina válida, precisamos desregular a vida das pessoas mais simples, reduzir impostos, taxas e contribuições das micro e pequenas empresas, bem como do trabalhador assalariado, que por definição, são os que mais necessitam de apoio do Estado.

Também não vou aqui desqualificar meu oponente. Não irei rechaça-lo ou chamá-lo de burro, idiota e mentiroso, como ele o fez comigo durante todos seus comentários. Não! Não irei questioná-lo se ele leu mesmo o livro (como o fez comigo) ou apenas reproduz parte do conhecimento ali exposto. Não irei chamá-lo de “burro” por que ele defende o liberalismo, e nem usufruirá de seus benefícios. Isso não faz ninguém ser burro ou idiota. Não! Pode ser inocência, aspiração política ou econômica, mas também pode ser cretinice. Se for cretinice, o que não acredito, se for cretinice, este texto de nada terá validação para ele. Os cretinos sabem que estão errados e não se consertam, pois estão ganhando com isso. Portanto, considerá-lo-ei um ser inocente.

Alguém que realmente não conhece os efeitos práticos do que defende. Creio que, nunca administrou uma empresa, nunca participou da vida pública e nem mesmo deve ter formação em economia. Então, não estou aqui para desconstruí-lo através de ofensas. Isto fica para os fascistas de plantão, sejam da esquerda ou direita. Meu negócio está no campo das ideias. Também não vou defender comunismo, socialismo, intervencionismo ou nacionalismo barato. Irei me opor ao que li e consigo contestar. O grande segredo do liberalismo de Mises é também sua maior falácia: A PRAXEOLOGIA. Vamos a ela.

Em seu livro “Ação Humana”, Mises escreve na página 23: “Toda decisão humana representa uma escolha. Ao fazer sua escolha, o homem escolhe não apenas entre diversos bens materiais e serviços. Todos os valores humanos são oferecidos para opção.” E continua: “Nada daquilo que os homens desejam obter ou querem evitar fica fora dessa ordenação numa escala única de gradação e de preferência.”

Mises só se esquece de uma coisa. Toda ação humana de um indivíduo depende da sociedade onde ele vive, seus aspectos sociais e culturais. Sempre nos convém duvidar de tudo, não sem razão. Vide crise de 2007/2008. O mercado livre constrange à ação humana. Na economia de mercado livre, o dinheiro é a fonte de riqueza e poder. Uma entidade acima de tudo e de todos.

O mercado livre é capaz de comandar a ação humana em benefício de uns poucos. Vejamos o que ocorreu no Brasil: corrupção pública e privada, chantagem, manipulação de leis, compra de opiniões, votos… E não acontece só no Brasil. Não é exclusividade nossa. Veremos um mal exemplo de um país rico mais adiante.  Portanto, o conceito da PRAXEOLOGIA por si só é falho, pois ignora o contexto social/cultural. Ao ignorar a história, a meritocracia reforça as desigualdades. Não há ação humana sem observar o ser-humano e o meio onde vive.

Um adulto na África, por exemplo, na Somália, não tem acesso aos mesmos recursos de um adulto na Inglaterra ou EUA. A decisão humana não representa uma escolha de fato para um africano, não seria a mesma escolha se ele morasse em um país rico. Portanto, a praxeologia é uma falácia. O próprio Mises reflete isso no final do livro, página 995: “A ação humana jamais poderá produzir uma satisfação completa; serve apenas para reduzir parcial e temporariamente o desconforto.”.

E na página 999 ele cai na real e admite de fato que sua “ciência” é falsa: “A liberdade de o homem escolher e agir sofre restrições de três tipos. Em primeiro lugar, estão as leis físicas a cujas inexoráveis determinações o homem tem que se submeter se quiser permanecer vivo. Em segundo lugar, estão as características e aptidões congênitas de cada indivíduo e sua inter-relação com o meio ambiente; tais circunstâncias, indubitavelmente, influenciam tanto a escolha dos fins e a dos meios, embora nosso conhecimento de como isso se processa seja bastante impreciso. Finalmente, existe a regularidade das relações de causa e efeito entre os meios utilizados e os fins alcançados; ou seja, as leis praxeológicas, que são distintas das leis físicas e fisiológicas.”.

Mesmo admitindo ao final do livro que praxeologia não é uma ciência, mesmo assim, ele insiste em tratá-la como tal, inclusive dizendo que a praxeologia possui leis. Inacreditável como o autor insiste em sua falácia. Mais inacreditável é ver jovens e adultos em um país em desenvolvimento como o nosso cair neste conto de fadas.

Feito a crítica, vejamos o que realmente defende o sr. Marcos Valadares. Vejamos como ele tenta me desqualificar, não por que eu sou uma pessoa sem estudos, mas pelo simples fato de eu ter críticas válidas ao liberalismo austríaco ou até mesmo à economia mainstream. Até o FMI tem suas críticas ao liberalismo. E, considero que quem as defende, tal como uma religião, é pouco informado da realidade do mundo e da realidade político-econômica que existem entre os países. São normalmente teóricos e acadêmicos, sem nenhum compromisso com as coisas reais.

No relato de Marcos Valadares verifica-se a introdução da censura e tentativa clara de me desmoralizar. Diz ele:

Marcos Valadares:

– O pensamento econômico é para ser universal, a Escola Austríaca se chama assim por ser onde ela surgiu o país Áustria, não se trata se uma escola nacionalista, por sinal, o nacionalismo é o último refúgio dos idiotas que por não conseguirem se sentir bem por si mesmos, que precisam se sentir bem pela obra do que acontece por parte de outras pessoas numa linha imaginária na qual nasceram por motivos aleatórios. Por sinal, atualmente a maioria dos pensadores da Escola Austríaca são de outros países da Europa como Alemanha e Espanha, ou então dos Estados Unidos e até mesmo da Argentina.

Aqui ele tenta subverter o que eu disse, introduz o termo “idiota” e situa por onde anda os escritores da escola austríaca, como se eu não soubesse. Depois, ele tenta explicar como é o sonho de privatização da escola em questão:

Marcos Valadares:

– Privatizações podem ser de vários jeitos, austríacos costumam defender abertura de capital e distribuição das ações por entre os funcionários. Quanto a leilões, eles não tem nenhum tipo de discriminação por nacionalidade e nem são o tipo defendido tradicionalmente por austríacos. Ninguém aqui está dizendo que se deve privatizar empresas para estrangeiros, apenas que não importa a nacionalidade. Mais, estamos dizendo que as ações delas devem ser distribuídas por entre os funcionários.

Então ele não percebe que esta ideia de “privatizar para os funcionários” é muito parecida como “apropriação dos meios de produção pela classe operária”. Como não irei entrar na questão marxista, deixo para o leitor a análise e livre interpretação.

Também não entende que, em um país em desenvolvimento, com baixa poupança, não há recursos para investimento, o que deve ser adquirido nos mercados estrangeiros. Portanto, qualquer privatização no Brasil inclui dinheiro estrangeiro. Não estamos vendendo as estatais para grupos brasileiros, vendemos para grupos estrangeiros, muitas vezes com dinheiro nacional (via BNDES), mas o lucro do negócio vai para fora e o prejuízo fica conosco. Não há vantagens para os indivíduos locais.

A vantagem sempre é de quem compra, por preço baixo, o que não conseguimos administrar por conta da nossa própria incompetência. E, por incompetência de uns, julgamos ser um negócio ruim, então colocamos à venda. Se o negócio de fato fosse ruim, ninguém compraria. Se compram, é porque é um bom negócio e dará excelentes lucros. A solução, portanto, não é privatizar. É criar meios transparentes para minimizar a corrupção, desburocratizar e dar um choque de gestão (sem interferência politiqueira) para que uma estatal possa ser lucrativa, como era e é a EMBRAER e a Vale do Rio Doce (ambas foram privatizadas a preço de banana e davam excelentes lucros). Alguém ganhou muito com essa brincadeira e não fomos nós.

Não sabendo debater ideias, ele tenta me comprar aos fascistas.

Marcos Valadares:

– Vou postar um vídeo do Mussolini defendendo o que você defende, apenas aguarde. Você quer algo mais extremista do que um nacionalista?

Triste argumento, meu caro. Olhe-se no espelho. Amar minha pátria, amar o Brasil, não faz de mim um ultranacionalista fascista. Sou um cidadão preocupado com o meu país, com a América Latina e com todos os povos que sofrem perseguições.

Marcos Valadares:

– Liechtenstein tem como Príncipe que governa o país um economista formado que segue os princípios da Escola Austríaca.

Aqui ele quer dar uma demonstração de um país que usa os métodos da escola austríaca: Liechtenstein. Para quem não conhece, é uma monarquia com pouco mais de 35 mil pessoas, isso mesmo, vou repetir: 35 mil pessoas. É menor que um bairro em Joinville. É como se fosse o bairro Aventureiro. Não dá nem para comparar. Triste saber que a única referência que ele pode me dar foi uma monarquia aonde rola solto lavagem de dinheiro. Talvez, por isso sejam ricos. A falcatrua começou. Agora vem o pior:

Marcos Valadares:

– O Brasil deveria ser dividido em mil pedaços cara. Para você saber qual é o plano, dividir o mundo inteiro em pedacinhos. Eu por mim botava fogo nela em praça pública. (Falando da Constituição Brasileira).

Então, foi ele que me comparou aos fascistas? Prega a separação do Brasil, botar fogo na constituição. Só isso aí pode complicar a vida dele com a Justiça. Não sei se ele sabe, mas são ideias inconstitucionais. Não debato com um democrata. Muito menos com um liberal. Ele se mostra o que é de fato: um separatista e tresloucado. O patriotismo aqui é zero. E nem estou falando de nacionalismo, mas apenas de patriotismo. Amor à nação? Amor ao Brasil? Não! Aqui há apenas a escuridão total e completa de alguém que só enxerga seu umbigo. Não é holista sua visão, mas de um imediatismo puro e simples. Eu diria canalha. Mas não vou dizer. Quer a saída não pela luta, mas pela entrega. Não existe nele a ação humana, existe uma entrega humana e de recursos de tudo o que temos em função de algumas benécies. Benécies? Não há benécies. Então ele continua a falar sobre Liechtenstein. Vejamos o que ele diz:

Marcos Valadares:

– Liechtenstein é muito mais país do que o Brasil, é pequeno, mas é bom. Para você, Victor Vargas de Andrade, já que você é tão repetitivo e se recusa a qualquer entendimento e prefere ignorar a questão de que a aplicação de idéias depende de grupos de interesses, geralmente bem mal intencionados, vai um negócio num nível mais adequado para a sua compreensão: https://www.youtube.com/watch?v=cPVmBeu6iNw Sonegaremos? Sim. Sonegaremos… Num nível bem baixo e direto: https://www.youtube.com/watch?v=m2MjkhQJOtQ  Hino Oficial Anarcocapitalista. Créditos: Ideias extremamente radicais. O fim dela em relação ao estado. Liechtenstein está cada vez melhor, a Escola Austríaca não é uma escola de esquerda para destruir países, muito pelo contrário, ela torna pequenos territórios em grandes lugares. O Império Austro-Húngaro seguia, o que acabou com tudo foram as guerras mundiais. Não é isso que valida uma escola, o que valida se trata da qualidade dos seus trabalhos, trabalhos esses que você não leu. O que faz uma escola predominar não é a qualidade, mas sim a força dos grupos de interesses, que em nada se preocupam com qualidade, mas sim com interesses. E digamos que nacionalismo é doce para empresários lobbystas. Para políticos partidários então, muito doce. Legal, assim consigo me exilar em Liechtenstein e ficar mandando vídeos incitando separatismo de lá para cá como um herói. É um princípio do direito internacional a Livre Determinação dos Povos. Por sinal, o que há de pior na sociedade são os comunas, não os fascistas nacionalistas.

Vou parar por aqui, pois neste trecho, além defender um país, cuja prática de riqueza é a lavagem de dinheiro, ele consegue alinhar a ideia de sonegação de impostos, anarcocapitalismo (hã?) e separatismo. Tá de brincadeira? Anarcocapitalismo é outra lógica absurda que eles insistem em formular. Mal sabem eles que não dá para conciliar anarquismo e capitalismo. Incitar a sonegação, separatismo… Ficou feio. Com esse tipo de pessoa não dá para conversar, debater então é pior. E, olha que eu tentei. Fui educado até o final. Mas não dá. Além de querer me classificar de burro, idiota, mentiroso e fascista, o que ele demonstrou é a falta de capacidade de diálogo no campo das ideias. Faltou-lhe humildade, inteligência e um espelho, para ver que no fundo, o que ele diz para mim, é o que ele é.

E termino parafraseando a última oração do livro de Mises para dizer que, caso o liberalismo realmente ocorra de fato no mundo, ou seja, caso o mercado seja 100% livre de regulação, aí sim, estaremos aniquilando a sociedade e a raça humana.

Ps.: Não corrigi os erros de português do sr. Marcos Valadares. Nem escrever corretamente ele sabe. Discutir economia então…

Prof. Victor Vargas

Facebook: @ProfVictorVargas

Twitter: @vva_oficial

 

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Almirante Othon: minha prisão interessa ao sistema internacional

Libertado pela segunda vez, o almirante Othon rebate acusações e conta a saga da tecnologia nuclear nacional.

 Almirante Othon e a ultracentrífuga idealizada por eleAlmirante Othon e a ultracentrífuga idealizada por ele.

Pouco antes de ser libertado da prisão na Base de Fuzileiros Navais de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, na quarta-feira 11, pelo Tribunal Regional Federal da 2a Região, o almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, 78 anos, encaminhou a CartaCapital as respostas às questões da entrevista a seguir.

Segundo o advogado Fernando Augusto Fernandes, o seu cliente, que é considerado o Pai do Programa Nuclear Brasileiro, é inocente de todas as acusações que levaram à sua condenação a 43 anos de reclusão pela Lava Jato, na ação penal que investiga supostos crimes de corrupção, lavagem de dinheiro, embaraço a investigações, evasão de divisas e organização criminosa na construção da usina nuclear de Angra 3. Como é comum na operação, chama atenção Fernandes, um “ouvi dizer” pronunciado por um delator premiado bastou para mandar à cadeia e com pena recorde na Lava Jato, só equiparável àquela do ex-governador Sérgio Cabral, um pesquisador e inventor que dedicou a vida ao País e à alta tecnologia nacional. “O almirante Othon de fato recebeu cerca de 3 milhões de reais quando era presidente da Eletronuclear, não por ato realizado na presidência da empresa nem relacionado à obra de Angra 3, mas por um estudo feito anteriormente em que empenhou seu conhecimento científico. O detalhe fundamental está aí”, sublinha Fernandes. “Para constituir crime de corrupção, teria de haver a indicação, pelos delatores, de algum ato que ele tenha realizado como presidente da Eletronuclear, ou anterior a isso, na forma de promessa, que gerasse alguma vantagem. Não existe”, acrescenta o advogado.

A carreira em prol do País, as honrarias que lhe foram conferidas no Brasil e no exterior, a importância estratégica das suas descobertas e a truculência dos inquisidores, que o levaram a uma tentativa de suicídio na cadeia, são narradas abaixo pelo almirante.

CartaCapital: A que atribui a existência das acusações que lhe são feitas?

Othon Luiz Pinheiro da Silva: Não tenho dúvida de que, no seu processo inquisitório sobre os empreiteiros para conduzi-los à delação premiada, o
Ministério Público da força-tarefa de Curitiba fez todo esforço para vir à baila
o meu nome. Perguntavam especificamente sobre a minha eventual
participação. O “ouvi dizer” do Danton Avancini ( diretor da Camargo Corrêa,
autor de delação premiada) foi a consequência desse direcionamento
inquisitivo, pois estavam em pauta apenas as licitações da Petrobras.

A quem interessa a sua condenação a 43 anos de reclusão?

Certamente, interessa ao sistema internacional preocupado com o
fortalecimento de um dos países integrantes dos BRICS. Os brasileiros
transnacionais, muito provavelmente, ficaram satisfeitos com o meu processo
e a minha saída do cenário. Considero como brasileiros transnacionais
aqueles que, embora tenham nascido neste belo país, gostariam de ser
cidadãos de outros países, em particular dos Estados Unidos. Não dão
importância aos grandes problemas e desafios nacionais, não se preocupam
em resolvê-los e, às vezes, em proveito próprio, não se importam em agravá-
los.

Como resumiria a importância do seu trabalho para o País?

Fui o gerente-coordenador do programa de desenvolvimento
tecnológico que assegurou ao Brasil, com esforço nacional, o domínio das
tecnologias de todos os aspectos estratégicos da energia nuclear. Coordenei
simultaneamente dois grandes projetos denominados pela Marinha, na fase
sigilosa, de Ciclone e Remo. São dois desenvolvimentos diferentes: o
primeiro implicou a viabilização, com tecnologia nacional, do enriquecimento
isotópico de urânio e de todas as demais etapas do ciclo do combustível
nuclear. O segundo consistiu no desenvolvimento e instalação nuclear para
submarinos, incluindo a fabricação, no Brasil, de todos os equipamentos e
componentes necessários. Para garantir a qualidade da instalação de
propulsão nuclear, foi realizado um programa de testes e verificação
experimental sem precedentes na história tecnológica brasileira. Em
nenhuma outra nação a mesma pessoa gerenciou simultaneamente esses
dois projetos, ambos com sucesso. Nos outros países, as Marinhas trataram
apenas do desenvolvimento da propulsão nuclear. Na diretoria da
Eletronuclear, gerenciei a definição do mais moderno programa de construção
de centrais nucleares e armazenamento de rejeitos. Esse programa provocou
grande impacto no cenário internacional. Uma evidência disso é o fato de eu
ter recebido, em um mesmo dia, na sede da Eletronuclear, as visitas do
subsecretário de Energia dos Estados Unidos e do ex-primeiro-ministro da
Rússia e presidente da empresa estatal de energia atômica Rosatom, Sergey
Kiriyenko.

Os valores envolvidos nos pagamentos arrolados pela acusação são
atípicos para o tipo de consultoria que o senhor costuma prestar?

Se forem considerados atípicos é por terem sido muito mais baratos.
O estudo inovador Um Porto de Destino para o Sistema Elétrico Brasileiro
interpreta as peculiaridades do sistema elétrico do País difíceis de ser
entendidas. Implicou transformar matematicamente as vazões de todos os
rios nacionais, levando em conta sua variação temporal, na vazão de um
único rio hipotético. O mesmo estudo foi feito transformando o estoque de
água existente em todos os reservatórios das hidrelétricas nacionais em um
único reservatório hipotético. Esse único reservatório hipotético constitui o
estoque regulador de energia elétrica do sistema elétrico nacional. O estudo
analisou o consumo de energia brasileiro, que vem aumentando, e
estabeleceu hipóteses sobre o crescimento dessa demanda no futuro.
Examinou a utilização da energia das fontes alternativas e demonstrou a
necessidade de construção de termoelétricas nucleares ou que usam carvão
combustível para, eventualmente, aumentar o estoque regulador de energia e
minimizar a utilização de termoelétricas que utilizam óleo e gás como
combustível e que conduzem a altos preços da eletricidade. O preço cobrado
por esse estudo foi de 3 milhões de reais, os mesmos referidos na data de
entrega do relatório, em dezembro de 2004. Se compararmos esse preço
com os valores cobrados pela equipe de ingleses que modelou o sistema
elétrico brasileiro na década de 1990, concluiremos que foi muitíssimo baixo.
Além de que, diferentemente dos ingleses, que transplantaram para o Brasil
soluções similares às utilizadas na Inglaterra, onde o sistema é quase 1 OOo/o
térmico e controlado pelo homem, no sistema elétrico brasileiro a maior parte
da energia é proveniente de hidrelétricas e fontes renováveis que sofrem as
variações que a natureza impõe. Um Porto de Destino para o Sistema Elétrico
Brasileiro preconiza a construção de centrais nucleares para evitar o aumento
abusivo dos preços da eletricidade e estabilizar o sistema. Nos trabalhos de
consultoria por mim realizados nos 11 anos na Aratec (empresa de
consultoria), o valor do homem-dia de consultoria foi sempre dentro da
mesma faixa. Os altos valores pagos pela eletricidade pelos brasileiros em
2017 comprovam o estudo por mim realizado em 2004.

O senhor foi chamado para explicar à Justiça os valores faturados por
sua empresa de consultoria?

Durante o julgamento, em dezembro de 2015, expliquei os valores que
foram questionados. Os representantes da força-tarefa do Ministério Público
não demonstraram a menor vontade de entender e um deles considerou Um
Porto de Destino para o Sistema Elétrico Brasileiro um pequeno estudo sem
relevância que o réu usava como desculpa. No julgamento, tive a sensação
de que havia uma sanha condenatória com motivações diferentes das
acusações apresentadas.


O Laboratório de Geração Nucleoelétrica e o restante do complexo da Marinha em lperó, São Paulo, concebidos por Othon

Quais as principais evidências do seu reconhecimento científico nacional
e internacional acumuladas na carreira?

Os resultados atingidos nos projetos do ciclo do combustível nuclear e
na propulsão nuclear constituem evidências indiscutíveis. O general Douglas
MacArthur dizia que na guerra não há substituto para a vitória. Sempre achei
que na engenharia e no desenvolvimento científico e tecnológico não há
substituto para o atingimento das metas e dos resultados. Recebi a Grã-Cruz
do Mérito Nacional, assim como Cesar Lattes, brasileiro indicado para o
Prêmio Nobel, e o brigadeiro Casimiro Montenegro Filho , fundador do Instituto
Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e precursor da indústria aeronáutica
brasileira. Fui agraciado também com o título de Pesquisador Emérito do
Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares, em São Paulo, concedido a
poucos ao longo da história do lpen. Recebi ainda a medalha Carneiro
Felippe, da Comissão Nacional de Energia Nuclear. Quando me aposentei da
Marinha, fui convidado por Pai Schiffer, então um alto dirigente da Agência
Internacional de Energia Atômica, em Viena, para trabalhar nessa instituição.
Não aceitei porque não seria ético. Eu havia trabalhado por muito tempo no
programa nuclear que desenvolvia aspectos estratégicos brasileiros e era
considerado, na sua fase inicial, secreto pelo governo do País. Considerava
incongruente trabalhar na AIEA, que inspeciona as atividades nucleares de
todos os países. Fui convidado também pelo internacionalmente renomado
doutor Hans Blix, diretor-geral da AIEA de 1981 a 1997, para proferir palestra
sobre a história da energia nuclear no Brasil desde os seus primórdios. Além
disso, recebi convite para representá-lo em um seminário mundial de energia
nuclear na Bulgária. A convite de Bernard Bigot , presidente da Comissão de
Energia Nuclear e Energias Alternativas da França, visitei as instalações de
Grenoble, onde estavam em curso as principais pesquisas francesas sobre o
desenvolvimento de componentes para aproveitamento da energia solar. Com
Bigot conseguimos o acordo Brasil-França para o desenvolvimento de
componentes e aplicação da energia solar usando o silício de boa qualidade
existente no Brasil.

Quais as oportunidades de desenvolvimento científico, como consultor, à
sua disposição no Brasil e no exterior ao longo da sua carreira?

No segundo semestre de 1994, logo depois do término do tempo de
serviço como vice-almirante no serviço ativo da Marinha, após recusar o
convite da AIEA, realizei o concurso para pesquisador sênior do Instituto de
Pesquisas Energéticas e Nucleares (lpen), elaborado pela Comissão
Nacional de Energia Nuclear, e classifiquei-me em primeiro lugar na
competição com 16 Ph.D. formados em universidades de outros países. A
CNEN, contrariando a lógica, não me empregou. Como a área nuclear no
Brasil, naquele clima de globalização da década de 1990, estava fechada
para mim, pelos meus pensamentos nacionalistas conflitantes com o clima
“globalizante” do período, resolvi abandoná-la e iniciei as atividades como
pequeno empresário. Durante 11 anos , não me faltaram trabalhos de
engenharia e consultoria. Um deles foi o mencionado Um Porto de Destino
para o Sistema Elétrico Brasileiro. Nesse período, o trabalho que mais me
empolgou foi um encomendado pela Socicam, proprietária dos terminais
rodoviários de São Paulo e Rio de Janeiro, entre vários outros. Tratava da
concepção de um sistema nacional para transporte de cargas que usasse
como célula mater contêineres e explorasse ao máximo a utilização de todos
os meios de transporte do País, com ênfase na navegação de cabotagem,
subutilizada. Em 2001, a pedido do professor José Goldemberg,
representante da sociedade civil no Conselho Nacional de Política Energética,
coordenei o trabalho de um grupo de engenheiros e técnicos da Fundação da
Universidade de São Paulo, que analisou a viabilidade de retomada da
construção da Usina Nuclear Angra 3. O estudo consumiu nove meses de
trabalho, foi muito elogiado pelo professor Goldemberg e considerado de
melhor qualidade do que os trabalhos equivalentes realizados pelas
empresas lberdrola, da Espanha, e Electric Power Research lnstitute (Epri),
dos Estados Unidos.

Por que a inovação introduzida pelo senhor no setor nuclear é importante
para o País?

Sozinho, nada realizei. O destino deu-me a sorte de compor uma
miríade de pequenas e muito competentes equipes, cujo trabalho deixou o
Brasil em patamar igual ou próximo dos países mais desenvolvidos na área
de energia nuclear. Quando o Alto-Comando da Marinha me designou para
desenvolver o submarino nuclear brasileiro e o combustível necessário para
tal, eu era o único oficial com especialização nuclear. Todo o esforço inicial foi
compor equipes e concentrar o trabalho no desafio principal, que era o
enriquecimento isotópico de urânio. Fizemos uma opção arrojada na época,
que era a tecnologia adotada para as ultracentrífugas, de minha concepção.
Ainda como aluno de pós-graduação no MIT, comecei a conceber a
ultracentrífuga logo depois de assistir a uma aula do emérito professor doutor
Manson Benedict, o primeiro diretor do Departamento de Energia Nuclear
daquela universidade, que, no final, fez um comentário jocoso: “Os brasileiros
acreditaram e compraram da Alemanha esse método. O Brasil gastou mais
de 1 bilhão de dólares desenvolvendo e construindo em Resende uma usina
piloto que usava a técnica jet nozzle e nunca enriqueceu nem 1 miligrama de
urânio”. Com as ideias que tinha sobre ultracentrífugas, a pequena e
maravilhosa equipe que tive a sorte de constituir projetou e construiu três
ultracentrífugas no Brasil com tecnologia de vanguarda. O trabalho foi iniciado
no segundo semestre de 1979 e, em setembro de 1982, produzimos uma
pequena ampola de urânio enriquecido e outra de urânio empobrecido. Foi o
maior evento tecnológico do Hemisfério Sul naquele ano. Com um avançado
método de gerenciamento de pesquisas que desenvolvi e denominei Sistema
Matricial Dinâmico de Gerenciamento de Pesquisas, o aumento do número de
equipes e o auxílio da comunidade científica brasileira, o País atingiu a
maturidade na tecnologia nuclear. Nada como uma equipe dedicada
trabalhando em um ambiente saudável para atingir os resultados. Quando fui
transferido para a reserva, em 1994, a Coordenação de Projetos Especiais da
Marinha tinha um quadro de 600 engenheiros e físicos que, somados às
equipes do lpen, totalizavam uma elite de 980 engenheiros e físicos de alto
nível. Isso foi muito importante para o País.

Como a sua descoberta repercutiu na comunidade científica
internacional?

Em 1987, o governo brasileiro, em cerimônia oficial no Palácio do
Planalto, comunicou oficialmente o domínio, pelo País, do ciclo do
combustível nuclear. Até aquele momento, as atividades tinham caráter
sigiloso. Essa comunicação oficial teve grande repercussão internacional. Em
8 de abril de 1988, com a presença do então presidente da Argentina Raúl
Alfonsín e do presidente José Sarney, foi inaugurado o Centro Experimental
de Aramar, em lperó, no estado de São Paulo – onde funcionava o primeiro
módulo da usina de demonstração industrial de enriquecimento de urânio -, e
assinado um tratado com a Argentina, que previa a inspeção mútua das
instalações nucleares dos dois países. Esse evento teve a mais ampla
repercussão na comunidade científica internacional. O pequeno discurso que
proferi na ocasião foi o cume da minha vida profissional e da minha
realização pessoal.

Como as realizações e o potencial do Brasil na área nuclear são
encarados no exterior?

O domínio da tecnologia de enriquecimento de urânio e de todas as
etapas do combustível, mesmo tendo optado por não produzir artefatos
nucleares, tem um valor estratégico militar muito grande. As grandes reservas
uraníferas brasileiras e o domínio da tecnologia têm um significado
econômico ainda não percebido pela maior parte dos que trabalham no setor
energético brasileiro. Nas reuniões internacionais sobre energia nuclear e em
uma reunião para a qual fui convidado na Energy Research and Development
Agency (Erda), nos Estados Unidos, em 201 O, tive a clara percepção de que
as nossas pródigas reservas de urânio e a capacidade tecnológica de utilizá-
lo são consideradas muito importantes internacionalmente .


O protótipo em tamanho natural do submarino nuclear com projeto encomendado a Othon, no complexo de lperó

No momento da sua prisão, a quais atividades de estudo e pesquisa
necessárias ao seu trabalho de consultor o senhor vinha se dedicando
?

O trabalho mais entusiasmante era um sistema de armazenamento de
combustível nuclear queimado nos reatores, por mim concebido, que estava
sendo coordenado pelo brilhante doutor Sergio de Queiroz Bagado Leite, à
frente de um grupo de engenheiros da Eletronuclear. Acredito firmemente que
a adoção desse novo sistema de armazenamento de rejeitas nucleares de
alta atividade, um dos maiores desafios tecnológicos da humanidade,
colocará o Brasil na vanguarda mundial dos países que utilizam a energia
nuclear. Esse sistema seria patenteado em nome da Eletronuclear. A segunda
atividade de estudo e pesquisa que eu desenvolvia era conduzida sob a
coordenação do doutor Leonam Guimarães e tratava dos estudos de
localização das novas centrais nucleares que o Brasil certamente necessitará
construir. Esse estudo especificava as características das usinas nucleares e
os requisitos que deveriam preencher para evitar acidentes nucleares. Foi
concebido para permitir a execução do programa por grupos privados, mas
assegurando baixo preço da eletricidade produzida e o controle estatal
brasileiro. A terceira atividade de pesquisa era coordenada por mim utilizando
as minhas folgas, férias e fins de semana e tratava do término do
desenvolvimento da família de hidroturbogeradores integrados para muito
baixas quedas-d’água, da qual detenho a patente.

Que balanço faz do seu tempo de atividade na Marinha?

A maior parte do tempo foi muito empolgante. Fui promovido a
segundo-tenente do Corpo da Armada em dezembro de 1960 e até 1963
operei embarcado no contratorpedeiro Mariz e Barros. Em 1963, sem
planejamento prévio, tive sucesso no concurso para cursar Engenharia Naval
na Escola Politécnica de São Paulo. De fevereiro de 1966 até maio de 1975,
trabalhei como oficial engenheiro no Arsenal da Marinha, período
interrompido em 1969 para estagiar por um ano na Gibb & Cox, em Nova
York, na época a maior empresa projetista de navios de guerra no mundo,
que na década de 1930 criara os destróieres classe Cassin, da qual derivou o
contratorpedeiro Mariz e Barros. Fiz estágios de quatro meses no
Philadelphia Naval Shipyard e de três meses no estaleiro Vosper Thornycroft,
em Southampton, na Inglaterra. De 1966 a 1975, quis o destino que eu fosse
escalado para gerenciar os maiores desafios que o Arsenal da Marinha
recebeu nesse período, considerado a sua época áurea, onde o nível de
atividade foi similar àquele vivido de 1935 a 1945, que englobou a Segunda
Guerra Mundial. Ainda como capitão de corveta, fui chefe da Divisão de
Oficinas e responsável pela manutenção dos navios da esquadra por dois
anos, época em que todos eles estiveram prontos para operar. Em março de
1973, fui designado chefe da Divisão de Construção Naval para construir os
navios de patrulha fluvial que até hoje operam na Amazônia, além de uma
dúzia de embarcações de desembarque para fuzileiros navais e seis
embarcações de desembarque de carga geral para fuzileiros. Gerenciei ainda
a implantação, no Arsenal da Marinha, do programa de construção das
fragatas Independência e União, que continuam a operar. Fui o oficial que
gerenciou o maior número de embarcações e navios construídos naquele
Arsenal no Pós-Guerra. Aos 35 anos, como capitão de corveta, tive a
oportunidade de cursar Engenharia Nuclear no Massachusetts lnstitute of
Technology (MIT). Em dois anos e 11 meses no MIT, completei 226 créditos
estudantis, cerca de 50°/o a mais do que os alunos que cursam o Ph.D.
completam. Ao regressar do MIT, em fevereiro de 1978, o diretor-geral do
Material da Marinha determinou que eu fizesse um estudo e um relatório
sobre a possibilidade de desenvolver submarinos com propulsão nuclear no
Brasil. O relatório foi entregue no fim de maio de 1978. A Marinha resolveu
fazer um estudo maior tendo como referência o meu relatório. Para minha
surpresa e perplexidade, em outubro de 1988 o almirantado ( equivalente ao
Alto-Comando no Exército e na Aeronáutica) decidiu iniciar o programa de
desenvolvimento da propulsão nuclear para submarinos. Recebi duas folhas
que, na realidade, eram o resumo do meu relatório e se constituíram na
minha missão nos anos em que permaneci no serviço ativo na Marinha, até
agosto de 1994. Para evitar que a natural burocracia administrativa naval
impedisse de desenvolver o programa, o almirantado me licenciou da Marinha
e alocou na Divisão de Estudos Avançados do Centro Técnico Aeroespacial,
em São José dos Campos. O projeto da Marinha era secreto e eu tinha
ordem expressa de não conversar com qualquer oficial da Marinha, só
poderia responder às perguntas que os almirantes quatro-estrelas do Alto-
Comando fizessem, somente se eles perguntassem e àquilo que
perguntassem. O almirante Maximiano Eduardo da Silva Fonseca assumiu o
cargo de ministro da Marinha em 1979 e eu tinha a determinação para, em
companhia do almirante Mário Cesar Flores, autor do estudo do Estado-
Maior, uma vez por mês relatar diretamente ao ministro o andamento do
programa. Iniciamos a pesquisa e o desenvolvimento com zero recursos
financeiros e zero equipe. Congregar uma das maiores equipes da história
tecnológica brasileira, conseguir recursos em outros órgãos do governo
federal além da Marinha, obter o apoio dos governos de São Paulo e da
comunidade científica nacional e gerenciar o desenvolvimento tecnológico foi
muita emoção, maior do que qualquer outro oficial engenheiro terá
oportunidade de ter e que dificilmente outros tiveram nas outras Marinhas do
mundo, pois tive de trabalhar na viabilização do combustível nuclear e no
desenvolvimento da propulsão em um país com indústria ainda em
desenvolvimento. Resumindo, a minha vida na Marinha foi fascinante e
desafiadora, pois estive sempre atuando na linha de frente da tecnologia.

Alguns daqueles que trabalharam com o senhor o descrevem como
um idealista. Qual conduta sua provavelmente alimentou essa conceituação
por parte de ex-colegas?

Fui criado ouvindo meu pai, um médico do interior que me ensinou
que vivemos em um lindo e formidável país, com um mix racial que, com
ensino e aporte tecnológico, poderá muito contribuir para um mundo melhor.
Meu procedimento e minha conduta foram sempre acreditar que não sou
dono da verdade. Acredito que podemos aprender com todos, todos os dias.
Uma boa parte dos companheiros era tão ou mais idealista do que eu.

Como o senhor avalia a sua situação psicológica? Qual a sua rotina
diária?

A sentença foi dada em tempo recorde, depois da apresentação da
defesa por meu advogado, e parece que já estava quase pronta. Ao conhecer
o seu teor, que no meu modo de ver foi injusto, e, se as acusações fossem
verdadeiras, ainda assim a sentença seria desproporcional tanto para mim
quanto para minha filha, vivi dois dias em que tentei, em revolta, renunciar à
vida. (Nota da redação: Ana Cristina da Silva Toniolo foi condenada a 14 anos
e 1 O meses por ser sócia do pai na consultoria que emitiu a nota fiscal do
estudo encomendado pela Andrade Gutierrez .) Depois, felizmente, me
aprumei e passei a querer intensamente viver, pois entendi que o suicídio por
revolta pela pena infligida à minha filha poderia ser interpretado como
confissão de culpa. Na parte da manhã, antes da cirurgia a que tive de me
submeter no dia 21 de setembro, fazia exercícios no cárcere e, nos 60
minutos previstos para banho de sol, andava de 5 a 6 quilômetros. Decidi
escrever um livro que relata a história da energia nuclear no século passado,
em particular na América Latina. Descrevo a saga que foi o programa de
desenvolvimento tecnológico no Brasil, em especial o esforço da Marinha e
seus obstáculos políticos. O livro foi manuscrito, pois não tenho acesso a
computador e, quando puder , vou digitar e fazer pequenas correções. Tomei
gosto por escrever e, no futuro, pretendo produzir outros livros. Ler e ouvir
notícias completam o meu tempo.

O que o senhor espera da Justiça brasileira?

Espero que deixe de ser direcionada por um pequeno grupo – onde
existe a possibilidade de participarem alguns brasileiros transnacionais – e
realmente procure aplicar a Justiça. Causou-me muita tristeza ver atuando
como auxiliar de acusação, pela Eletrobras, um advogado indicado pela
empresa estrangeira Hogan & Lovells, muito ativo. Também muito me
entristeceu o juiz repetir várias vezes na sentença o eventual prejuízo da
Eletrobras por possível desvalorização das ações na Bolsa de Nova York.
Como o preço de construção de Angra 3, por megawatt instalado, era menor
do que construções equivalentes nos Estados Unidos, França e Finlândia, só
perdendo para o preço praticado na China, acredito que um dia isso será
levado em consideração pela Justiça brasileira. A grande melhora de
desempenho da Eletronuclear, transformando-a em uma das melhores
centrais nucleares do mundo, certamente contribuiu positivamente para o
preço das ações da Eletrobras, mas isso também não foi levado em
consideração na sentença.

Fonte: CartaCapital

Por Carlos Drummond, da Carta Capital

NOAM CHOMSKY E O GOLPE SUAVE NO BRASIL

Nós também temos uma pergunta agora sobre o Brasil, eu gostaria que você comentasse sobre o golpe no Brasil.

Noam Chomsky:
– Bem, o que aconteceu no Brasil é às vezes descrito como um golpe geralmente um golpe suave, não é um golpe militar do tipo que os EUA ajudaram a iniciar em 1964. A base para isso foi iniciada pela administração Kennedy e foi realizada pouco depois do seu assassinato.

Instituiu-se o primeiro estilo neo-nazista, um estado de segurança nacional no hemisfério e foi mais tarde uma praga espalhada pela maior parte do hemisfério da América, atingindo a América Central na década de 1980.
Esse foi o golpe de 1964, o atual não é um um golpe militar, é uma espécie de golpe parlamentar que removeu a figura política que não foi envolvida no escândalo de corrupção para enriquecimento pessoal, a única política livre dessas acusações, ao contrário das as pessoas que estavam votando para impugná-la.

Quase todos estão sob cargas severas e significativas de grande corrupção para os seus próprios benefícios, então é um golpe suave, de fato, o Supremo Tribunal do próprio Brasil determinou que as taxas oficiais contra Dilma Rousseff não são cobranças legítimas, mas o impeachment passou e o governo atual de Temer é, na verdade, devo dizer muito da minha informação sobre isso vem da minha esposa Valeria, que é brasileira. Ela me disse o que está acontecendo no Brasil através dos jornais.

O governo atual institui políticas extremamente reacionárias claramente tentando descartar o progresso e as realizações que foram feitas pelo PT, o Partido dos trabalhadores, nos últimos 15 anos. Agora, o PT é culpado de muitos crimes e fizeram coisas horríveis, mas eles também realizaram políticas bastante benéficas para muitos brasileiros.

A população agora está sendo revertida. O novo governo, é todo branco, feito por homens e para um país diverso, as políticas são bastante assustadoras, é claro, fortemente apoiado pelos Estados Unidos como parte de um esforço para reverter o progressivo desenvolvimento ocorrido na América Latina nos últimos 15 anos e eu deveria dizer que a esquerda desses países têm muito para responder pois fizeram muitas coisas erradas, totalmente errado, mas nada justifica o golpe suave aconteceu.

Veja o vídeo em:

 

De Boas Intenções O Inferno Está Cheio

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CAPÍTULO 1: A Reunião Do Faz De Conta
Temer, Renan e Maia se reúnem no domingo em rede nacional e falam contra a anistia do caixa 2.

CAPÍTULO 2: Os Bastidores Do Poder
Na segunda, ao invés de ir a Chapecó apoiar as famílias da tragédia, como faria todo estadista, Temer passou o dia ligando para Senadores para que fosse aprovada a PEC 55, a tal PEC do corte dos gastos por 20 anos, também chamada carinhosamente pelos opositores de PEC da Morte ou PEC do Fim do Mundo. Pois bem, inocente acreditar que o circo armado fosse para o nosso o bem.

CAPÍTULO 3: Na Calada Da Noite
Nesta madrugada foi votada e aprovada pelo Congresso Nacional a proposta das dez medidas contra a corrupção. Mas o que foi aprovado mesmo nesta madrugada de terça para quarta foi o AI-5 do Crime Organizado. A aprovação da proposta das #10Medidas contra a corrupção se transformou numa aberração incalculável e inimaginável: não foi aprovada a anistia do caixa 2, conforme prometido no domingo, pois isso era o pretexto para aprovar todo o resto. Na calada da noite, fizeram das propostas contra a corrupção um pacote a favor da corrupção, assim, na cara dura. É o jogo do vale-tudo. Das dez medidas originais, só quatro foram mantidas, e com modificações.

CAPÍTULO 4: 10 Medidas Pró-Corrupção Aprovadas
1. Rejeitaram que os acordos de leniência por parte das empresas pegas em corrupção fossem celebrados pelo Ministério Público.
2. Rejeitaram o crime de enriquecimento ilícito de funcionários públicos.
3. Rejeitaram o confisco dos bens no caso de enriquecimento ilícito.
4. Rejeitaram o “reportante do bem”, aquele cidadão que ao denunciar crimes de corrupção seria recompensado por isto.
5. Derrubaram as mudanças para dificultar as prescrições de penas, entre outras aberrações.
6. Rejeitaram os acordos entre defesa e acusação no caso de crimes menos graves. O objetivo era tentar simplificar os processos.
7. Rejeitaram o confisco alargado para que o criminoso não tivesse mais acesso ao produto do crime, para que não continuasse a delinquir e não usufruir do produto do crime.
8. Rejeitaram a responsabilização de partidos que previa a responsabilização dos partidos políticos e a suspensão do registro da legenda por crime grave.
9. Além de retirarem diversas propostas, os deputados incluíram outras, como a proposta de punição de juízes e membros do Ministério Público por abuso de autoridade.
10. Os procuradores ou promotores também estarão sujeitos a indenizar o denunciado pelos danos materiais, morais ou à imagem que houver provocado.

CAPÍTULO 5: Inocente Somos Nós e Ninguém Bateu Panela
O que a Câmara aprovou das #10Medidas e Senado aprovou com a PEC 55 visa apenas e tão somente manter e ampliar seus interesses políticos e privados. Simples assim. E de forma democrática e legal, pois demos a eles o poder através do voto. Inocente foram o MPF, o procurador Dalagnoll e todos nós. Inocente fomos nós ao pensar que o impeachment era para acabar com a corrupção e resolver a crise. E ninguém bateu panela.

CAPÍTULO 6: Está Tudo Dominado
Geddel formava com Eliseu Padilha, Chefe da Casa Civil, e Moreira Franco, Secretário Executivo, todos do PMDB, o trio de maior confiança de Temer. Geddel caiu ao pressionar o Ministro da Cultura (órgão extinto e depois recriado por Temer) para liberar uma obra embargada no centro histórico de Salvador, no qual era interessado. Temer e Padilha, ao que tudo indica, também pressionaram o Ministro Calero para favorecer seu protegido Geddel. Agiram todos por interesses pessoais. Romero Jucá, outro companheiro de PMDB, deixou o Ministério do Planejamento assim que foi pego em uma gravação tentando sabotar a Lava Jato. Votou ao Senado como líder do governo. Agiu por interesse pessoal. Renan, o Presidente do Senado propõe no um projeto de Lei para intimidar o Judiciário. Mais um político do PMDB agindo por interesses pessoais. Cunha, quando Presidente da Câmara, aceitou a denúncia de impeachment após o PT retirar o apoio a ele na Comissão de Ética. Outro político do PMDB agindo por interesses pessoais. Esses mesmos personagens que estão no poder hoje estavam no poder quando o presidente era Sarney, Collor, Itamar, FHC, Lula e Dilma. De uma forma ou de outra. Está tudo dominado.

CAPÍTULO 7: Minha Casa, Meus Investimentos E Meus Interesses Pessoais
Falando em interesses pessoais, lembremos que além de viver em um país democrático, nosso sistema econômico é capitalista. Mas não vou entrar no mérito que rolou esses dias na internet sobre a compra de imóveis do Minha Casa Minha Vida feito pelo procurador Dalagnoll. É normal que todos queiram prosperar. Essa é a lógica capitalista. Entretanto, não é uma questão de direitos apenas, é acima de tudo uma questão de privilégios e interesses pessoais. Em última instância é uma questão moral. Ou eu diria imoral, afinal o MCMV foi feito para pessoas de classes pobres ou quem ainda não possui imóveis. Não é o caso procurador. Mas, por vivermos em sociedade onde a vantagem pessoal está acima da vantagem coletiva, todos nós estamos procurando nosso lugar ao sol, nem que para isso tenhamos que empurrar e passar por cima de outros. E infelizmente, isso não é diferente para quem tem poder como empresários inescrupulosos, sonegadores de impostos e corruptos, procuradores, juízes, deputados, senadores e presidente da República. Cada qual tem seus princípios e interesses, e muito, muito poder. Essa parece ser a lógica e não há santos nesta história.

CAPÍTULO 8: Powerpoint Vende
Toda via, a crise aperta para o lado mais fraco. A PEC 55 prova isso. Não se iluda, ela é ruim, por mais que digam que é importante cortar os gastos públicos, isso vai além. É sempre assim: no powerpoint é lindo e o que é entregue é um monstrengo. O nome é lindo: 10 medidas contra a corrupção. na prática, deu no que deu. O nome é lindo: PEC do corte dos gastos. Daqui a vinte anos a gente conversa.

CAPÍTULO 9: O Pato E A Revolta
Em todas as crises há um pato. E há alguém que irá pagar o pato. Quem paga o pato sempre é o pobre e a classe média. É o lado fraco da balança. E no outro lado da balança vemos uma casta de políticos aprovando corte nos gastos sociais por 20 anos, medidas pró-corrupção e outra casta de funcionários públicos com salários acima do teto, benefícios obscuros e benesses desproporcionais ao que recebe o brasileiro médio. Isto faz qualquer um ficar revoltado ou resignado.

CAPÍTULO 10: Somos a Parte Interessada Ou A Parte Interesseira?
Como fomos criados, nossas experiências e vivência do mundo? Cada um de nós vê o mundo de forma diferente e reage conforme princípios e interesses. Por exemplo, uma dona de casa pode pensar que a PEC 55 é boa, pois precisamos economizar e cortar os gastos, e sua família não usa a escola pública e a saúde pública. Essa mesma dona de casa pode pensar que as propostas das 10 medidas aprovadas como foram são ruins pois ela é “contra a corrupção”, como todos nós. Já um estudante da escola pública ou um velhinho que precisa do SUS, serão contra a PEC 55 e também contra as medidas pró-corrupção aprovadas. O empresário será a favor das PEC 55 e contra as medidas pró-corrupção aprovadas. Já um político… Relembrando: cada um de nós reage as coisas conforme princípios e interesses. Depende de qual deles você coloca na frente. Quando eu coloco os meus princípios a frente dos meus interesses, eu serei contra a PEC 55 e contra as 10 medidas independentemente de quem seja eu: dona de casa, político, empresário, trabalhador, estudante, aposentado ou idoso. Mas isso não significa que sou contra o corte dos gastos ou a favor da corrupção. É porque eu tive o disparate de me informar e ler as propostas aprovadas. Sou parte interessada no assunto.

CAPÍTULO 11: O Poder Do Protesto
Não, eu não tenho poder. E nem você tem. Sozinhos não. Esse jogo não foi feito para um povo desunido ganhar. É o jogo do ganha-ganha da minoria contra o perde-perde da maioria. Os criminosos de colarinho branco vencem mais uma vez e a Justiça e o povo saem enfraquecidos. É o jogo de “O Povo Se Ferra”. Eles nos colocam uns contra os outros e saem ilesos. É militante de esquerda contra militante de direita e eles nem ao certo leram Karl Marx ou Adam Smith. São todos contra a corrupção e são a favor de uma escola e saúde de qualidade e brigam porque não possuem entendimento correto dos assuntos. Não somos nada assim. Não temos nada assim. Mas mesmo assim temos a voz. É a única coisa que temos. A voz. O grito. O protesto. Temos que ter a atitude de nos informar mais, ler mais, discutir civilizadamente mais. Falar. E não calar! Nossa Democracia será mais forte quando tivermos mais gente nas ruas, mais plebiscitos e referendos. Assim se constrói a Democracia. A não ser que queiramos a Anarquia ou o retorno à Ditadura. Creio que não estamos preparados nem para um e muito menos para o outro.

CAPÍTULO 12: Julgamentos Antes Dos Julgamentos
Neste momento estamos vivendo no Brasil uma passagem da nossa História de julgamentos morais e linchamentos públicos, vide o caso do quebra-quebra na casa do suposto dono do drone que provocou a torcida do Inter ou quando os policiais dão um trato nos estudantes e manifestantes contra a PEC 55 no Senado. Estavam lá no Senado, no estádio de futebol, mas quem estava na Câmara dos Deputados acompanhando a votação das 10 medidas? É muito interesse pessoal, ódio, sangue nos olhos, faca nos dentes. Enquanto ficarmos no “cada um por si” e “farinha pouca meu pirão primeiro” esquecemos a Nação. Conseguiram retirar da Presidência aquela que não teve nenhuma acusação de corrupção. Foi removida por uma questão administrativa, seu governo foi ruim, mas o que estamos vivendo é pior. Por isso eu, assim como muitas outras pessoas, não me sinto à vontade de fazer o mesmo. Não vou julgar ninguém. Neste momento eu só ouço, interpreto. Não quero ter razão. Eu quero PAZ.

CAPÍTULO 13: Somos Mais Que 11
Apesar da idolatrização a tantos procuradores e juízes, não sem seus méritos, diga-se de passagem, apesar de toda essa idolatrização, tenham certeza, não há salvadores da pátria, e ninguém está imune. Não somos perfeitos, não somos únicos, não somos especiais. Por isso precisamos uns dos outros, e precisamos cobrar de nós mesmos pois depende de nós. Somos nós quem devemos dar o primeiro passo. Não espere isso de nenhuma instância de poder. Comecemos por nós. Temos princípios e interesses. E quando falamos de construir uma nação, devemos colocar os princípios na frente dos interesses. Assim como todo o mundo do futebol se uniu em prol da Chapecoense e dos familiares mortos neste terrível acidente, temos que fazer o mesmo em outras instâncias de nossas vidas: temos que nos solidarizar com os outros e nos colocarmos em seus lugares. Como diz o próprio Dallagnol temos que “deixar de praticar as pequenas corrupções do nosso dia a dia, que acaba gerando tolerância com a grande corrupção”. E conclui “Atitude! Nós precisamos agir”.

O Fim do Mundo

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Ok, o mundo não vai acabar. Não hoje, mas o título é bom.

O que tem a ver o fim do mundo, a vitória de Trump nos EUA e o Brasil? O que nos afeta.

Trump nos afeta. Ele assusta. Ele pode detonar o mundo, mas não vai apertar o botão vermelho. Assim, a gente espera. Mas que ele abalou o mundo, abalou. Principalmente os mercados. Mesmo sem chegar perto do botão, ele já abalou, fez estremecer a todos no mundo. Então ele nos afeta. Suas ameças, creio, ficaram na campanha. Mas as promessas nos afeta como nação e humanidade.

Os estadunidenses possuem uma lógica diferente da nossa aqui no Brasil. Lá, o problema central é a segurança. Mas não medo de assalto, roubo, sequestro, o medo principal é o medo do terrorismo. O medo é do estrangeiro. Aqui, a preocupação é outra: é saúde, segurança, educação, merenda, buraco na rua, falta de saneamento, grandes obras de infra-estrutura… Mas temos ao menos duas coisas em comum.

A primeira é que lá, como aqui, muitos deixaram de votar, se abstiveram. No Brasil as abstenções, votos brancos e nulos giram em torno de 30-40% e subindo. Lá, onde o voto é facultativo, o índice de abstenções também é alto e cresce a cada eleição. A primeira conclusão é que ambos estamos insatisfeitos com a política e com os políticos. Estamos ou nos ausentando desse direito ou escolhendo pessoas novas, ditas não-políticas, super autoritárias, “pulso firme”, “mãos limpas”, grandes empresários, gente da mídia, famosa, rica e gente muito, muito duvidosa.

Outra coisa em comum é que a população em geral é conservadora e isso se comprovou tanto na eleição para presidente de lá como para prefeitos e vereadores aqui. E por fim notei o eleitor médio na verdade é medíocre, nada sabe sobre política e não consegue criar uma argumentação lógica. Não entende sobre ideologia e não é capaz de se identificar com uma.

Voltando ao fim do mundo, não sei o que é pior: Trump presidente dos EUA, Temer ou Bolsonaro no Brasil. Ok, o mundo não vai acabar. Não hoje, mas o título é bom.  😀

 

 

Ética, nossa relação com o trabalho e o eterno retorno.

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Como avaliamos um profissional através de números?

Esta pergunta pode ser respondida por gráficos, tabelas, metas atingidas etc. Por estes índices podemos averiguar sua produtividade e efetividade. As grandes e médias empresas utilizam métodos quantitativos neste processo, mas muitas vezes se esquecem de avaliar seus empregados através de uma metodologia qualitativa: a ética.

O modelo de negócio estabelecido no mundo caracteriza-se por atingir metas. Tais metas significam vendas. Vendas são o motor do negócio. Mas, um mundo em crise significa menos vendas. Menos vendas significam menos metas atingidas. Menos metas atingidas significam mais demissões. Mais demissões significam menos poder de compra. Menos poder de compra significa menos vendas. Menos vendas significam menos metas atingidas. Menos metas atingidas… Entendeu? É um ciclo. O eterno retorno da crise financeira.

E a empresa? E a corporação? E a organização? E o empresário? Onde fica o empresário do meio de produção? Fica preso em uma cilada. Se investir e a crise piorar ele pode quebrar a empresa. Se não investir e a crise terminar, ele estará atrasado para o mercado de demanda. Então, o que ele faz? Investe no mercado financeiro, compra ouro, ações, dólar, títulos, coloca o dinheiro debaixo da cama, paraíso fiscal… Investe o mínimo na empresa, ou nada, e demite parte do capital humano para não cortar na própria carne. E volta o ciclo. O eterno retorno de manter o establishment.

E o trabalhador? E o funcionário? E o colaborador? E o participante? Onde fica o participante do meio de produção? Fica preso em uma cilada. Se atingir a meta, mesmo em crise, pode ser demitido. Se não atingir a meta é bem provável que seja demitido. Então, o que ele faz? Ele mete a faca nos dentes, faz correr o sangue, vara noites, fins de semana, viagens, emails, whatsapp, relatórios, apresentações no Powerpoint, faz de tudo para atingir a meta. E aí, ao atingir, vai pra casa com seu salário magro, mas pensa “melhor que nada”. E, o pior é que ele está certo. Pouco é melhor que nada. Estar empregado é melhor que estar desempregado. Ainda mais em momentos de crise, demissões em massa e arrocho salarial. Essa é a regra do jogo: ou vai ou racha! E o que arrebenta é a tua tampa da caixa…

De manhã, ele se levanta volta cedo ao trabalho. Mais metas para serem atingidas, mais pressão, mais números, mais gráficos, mais noites sem dormir para terminar o relatório. Se precisar ele passa por cima de tudo e de todos para cumprir a meta, pois ele assumiu a meta. E uma meta dada é uma meta cumprida. Mas por fim, ele vai sendo consumido, sugado por um mundo que não é o dele. Já não tem tempo para a família, para os amigos, para o lazer. Férias são reduzidas e mesmo nas férias ele fecha negócios.

Mas ele é o cara! Ele atingiu a meta! Vai ganhar um bônus! Uma batedeira novinha! Uma geladeira! Um boné! Uma viagem! Uma placa! Um parabéns! Um destaque! Uma foto no mural! Tapinha nas costas! E volta pra casa com seu salário magro e pensa: “que legal, eu sou o cara, mas bem que eu podia ganhar uma promoção, uma salário melhor ou até mais participações nos resultados, quem sabe virar sócio… Mas, pensando bem, melhor que nada.”. E volta o ciclo. O eterno retorno do medo de perder o emprego e ser resiliente.

E um dia, ele acordará e perceberá que fora demitido, ou que se aposentara. Não fará mais parte do time, da equipe, da turma, do departamento. Ele terá apenas remédios para comprar, contas para pagar e uma homenagem emoldurada ou uma placa na parede. E volta o ciclo. Mas agora, já não terá medo de perder o que não tem. Terá apenas arrependimentos.

Então, neste momento, retorno à pergunta inicial: como avaliamos um profissional através de números?

Profissionais não são números, são pessoas. Eles não deveriam ser avaliados por metas atingidas, gráficos de produtividade, linhas de código produzidas, páginas digitadas, índices computáveis, ou quaisquer outros processos quantitativos de avaliação. Antes de tudo, elas devem e podem ser avaliadas por sua conduta, por seu compromisso, por seu esforço, por seu respeito, por sua liderança ou até mesmo por sua submissão. Ou seja, por suas atitudes e ética. As metas são só metas. Vendas são só vendas. Linhas de código são só linhas de código. Pois, afinal, sempre teremos outras metas, vendas e linhas de código para conquistar. Pessoas, não. Pessoas são para manter, abraçar, ajudar, colaborar, levar junto, estabelecer relacionamento, união.

Estamos longe de termos uma sociedade mais ética, mais justa e fraterna. Uma sociedade menos pensada no mercado e mais pensada no ser-humano e nas suas relações seja com o trabalho, com a natureza, ou entre nós mesmos. Estamos longe, mas um sonho não sonhado nunca se transforma em realidade.

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Tenho publicado artigos no Pulse LinkedIn, no Política Sem Vegonha e no O SupraSumo.

Te espero no meu Twitter e Instagram.

Obrigado e volte sempre!

Victor Vargas

Dilma, Sua Cabeça Está Na Guilhotina

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Dilma,

Sua cabeça está na guilhotina e eu sou o seu carrasco.

Me deram o poder da lâmina no seu pescoço.

Um poder político, financeiro, jurídico, policialesco e midiático.

Este é o seu castigo, este é o meu desgosto, este é o seu destino e este é o meu ocaso.

Esta é minha punição por ter em você votado, na última eleição, mesmo contrariado.

Mas agora, chegou a hora, a hora de ser cobrado.

Você morre em minhas mãos e seu sangue será derramado.

Ninguém sabe bem o por quê, ninguém se importa ou fora consultado.

Qual é a sua condenação? Por que ainda o processo não foi julgado?

Neste segundo, neste eterno retorno, retorno ao meu oráculo.

Lembra da campanha de 89?

Do caçador de marajás da Veja e do Globo Repórter?

Collor era o collorido, o bom moço, o bem amado.

Lula era o comuna, o sapo-barbudo e proletário.

Collor era o novo, era jovem, um lindo empresário.

Mas farsa collorida duraria muito pouco…

Impichado por seus comparsas, assumiu o Itamar fraco

com seu topete viciado.

Viciado em meninas sem calcinha quase sofre um golpe de estado.

Mas eu ainda tinha ideologia, tinha consciência e tinha lado.

Minha rede era a Rede Povo! E com o povo eu tinha fechado.

Em 94 lá estávamos de novo, cantando e sendo encantado!

Não deu e o Brasil perdeu o passo, caiu do abismo no buraco.

O buraco era mais fundo, foi-se a Vale, foi-se o ouro,

estávamos todos quebrados.

Vendidos por dinheiro pouco, nada nunca foi provado.

Por conta do poder financeiro, político, jurídico, policialesco e midiático.

Em 98 tentamos mudar o paço, queríamos o metalúrgico no palácio.

Com a força do voto e do povo, não deu certo, deu errado.

Mais uma vez estávamos frustrados, enterrados outra vez no buraco.

Fernandinho era o príncipe do que fora privatizado.

Mas veio a pasta rosa e toda a sujeira do caso Banestado.

Ninguém investigado, ninguém preso, julgado ou condenado.

Tudo fora arquivado, tudo era engavetado.

Então percebemos que não tínhamos como lutar contra quem tem a bazuca do Estado.

O Estado político, financeiro, jurídico, policialesco e midiático.

Eles só prendem e condenam preto, pobre e miserável

que rouba uma galinha do supermercado.

Supermercado este, multinacional e multibilionário.

Não temos como enfrentar a besta grande, melhor ficarmos calados.

Mas aí, veio 2002 e o povo já estava cansado.

Casado do complexo de vira-lata, cansado de um governo corrupto e fracassado.

Lula foi eleito após este longo bocado.

Saímos às ruas para comemorar a conquista do operário.

Como fora democrático, nenhum rei, príncipe ou rainha fora executado.

Não havia paredão, guilhotina, execução ou até mesmo carrascos.

Estávamos tão felizes que deixamos pra lá os safados.

Fome-Zero do Betinho fora sancionado.

Brasil crescendo de vento em popa e no mundo, sendo elogiado.

“É o cara, é o cara”, disse o Obama empolgado.

Era mesmo puro êxtase até o mensalão mal-fadado.

Muita corrupção para um partido que se dizia ético e ilibado.

Mas ilibado é impossível com porcos aliados.

Eu já sabia disso, mas por um tempo me mantive calado.

Era muita decepção e um nó na garganta eu tinha entalado.

Mas não votei mais em vocês depois desse terrível fato.

Minhas primeiras escolhas continuaram à esquerda,

mas já não estava mais neste compasso.

O gesto se repetiu, o escrutínio estava lançado.

Fui de Cristovam, de Marina e Luciana nos últimos atos.

E por força do desejo, meu voto não é anulável.

Mas esforcei com tanta força que a lama desceu rio abaixo.

Era Doce, era drama, era lama e, o petrolão sujou seu mandato.

Me mandaram novamente lançar a lâmina e cortar o seu barato.

Você me pergunta quem? Eu te digo bem regrado.

É o Estado político, financeiro, jurídico, policialesco e midiático.

Eles vivem me enchendo o saco.

É notícia tendenciosa o tempo todo, sem descanso e sem preparo.

São mentiras descaradas e meias-verdades para todos os lados.

Implantaram uma nova ideia, como num manta sagrado:

“Fora Dilma! Fora PT” mil vezes iterados.

Mas mamãe já me dizia: cabeça vazia é oficina do diabo.

Eles pensam que sou bobo, ignorante e continuo um otário.

Mas ainda, neste eterno segundo retorno lembrei-me de todos os fatos.

Temos muitos outros atores culpados, mas não julgados.

Por que deveria eu cortar sua corda sem fatos comprovados?

As coisas não são tão flores, nem o jasmim e nem a rosa exalam tantos odores

como os destes ratos putrefatos…

Num naufrágio, são eles os primeiros a abandonarem o barco.

Dilma, caia na real! Cumpra seu dever com o povo, pois este está do seu lado.

Não somos da CBF, esta empresa mais suja que a Samarco.

Amanhã inicia-se a revolução e o povo vai às ruas

exigir que seu voto seja respeitado.

Quem me tragam primeiro o Maluf

e o Serra para serem serrados.

E que me tragam o Eduardo Cunha, o Temer e o Neves

para que com papéis higiênicos sejam higienizados.

Nem tudo que devo eu quero. Nem tudo que posso eu faço.

É, já não sou mais um ventríloquo, já não sou mais manipulável.

Lula e Dilma: diretos para o final da fila!

Mas vocês não serão poupados.

E não se esqueçam: não haverá perdão para os condenados.

Corra Lula, Corra!

Último lançamento do cinema: Corra Lula Corra

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O protagonista de “Corra Lula, Corra!” é o Tempo Moro. Todos os outros são secundários. Principalmente aquilo que é realmente importante: os espectadores.

Escravos do tempo e de tudo o que está atrelado a ele, perdemos a capacidade de julgamento, de amar e tudo mais de bom que existe.

O filme nos faz pensar em como nos posicionaremos diante da história, portanto, do passado, do presente e nosso possível futuro. Como dizia o anarquista russo Mikhail Bakunin: “Foi na busca do impossível que o homem realizou e reconheceu o possível”.

A música frenética que acompanha Lula em sua desabalada correria é o “tic-tac” insano e moderno de uma sociedade que desaprendeu de simplesmente existir. O imediatismo no julgamento dos personagens é mote do cruel tempo.

No filme, pouco importa o caráter dos personagens como Dirceu, o pai de Lula, um bandidinho preso e confundido como chefe, um empresário inescrupuloso chamado Chefe Marinho e toda sua rede de mídia, sua filha Dilma que está preste a ser degolada na mão do sanguinário Cunha e seus tantos picaretas. Enfim, pouco importa o caráter de ninguém, pois o principal é… O Tempo Moro e seu fiel escudeiro, o ministro-fazendeiro-empresário Gilmar.

Lula é uma espécie de ponteiro do relógio. Então ele corre, corre, corre, porque o tempo sempre corre.

No inicio da história da marcação das horas os relógios não tinham o ponteiro de segundos. Hoje tem o de segundos e os mais modernos marcam milésimos, centésimos… Quanto mais preciso é a marcação do tempo mais precisão é exigida das pessoas. E precisão significa escravidão.

Escravos do tempo e de tudo o que está atrelado a ele, nós, a platéia, perdemos a capacidade de julgamento, de amar e tudo mais de bom que existe.

Lula corre e ao correr interfere nas vidas daqueles que estão no caminho de sua corrida. E sem perceber, por que nunca percebemos aqueles que ultrapassamos na rua, em nossa corrida em busca sempre de algo que na maioria das vezes nem sabemos o quê.

Três finais possíveis para uma mesma história inicial:
1. Lula morre, assim como sua filha Dilma; o Chefe Marinho coloca o Tempo Moro como sub-chefe.
2. Lula é preso e sua filha é destituída do trono; o Chefe Marinho coloca o sanguinário Cunha para comandar a facção juntamente com seus sócios Temer e Renan, ambos sempre a espreita.
3. Lula vence o Tempo Moro e a todos, principalmente o Chefe Marinho e, por fim é consagrado pelos espectadores, salva sua filha Dilma e ela consegue terminar o que começou: governar o filme para todos os espectadores.

De qualquer forma, “Corra Lula, Corra!” é um filme surpreendente sob todos os aspectos em que o analisemos. E principalmente surpreendente por tratar de temas tão pouco discutidos e nem sempre tratados com tanta competência: a política, a justiça e seu verdadeiro Tempo.

Adaptado originalmente da resenha do filme alemão Corra Lola Corra.

A Verdade Dói, Mas Liberta

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É, eu sou socialista. Mas também sou cristão.

Deixe-me lhes contar uma história. Não quero influenciar ninguém. Cada um escolhe sua ideologia através de suas próprias perspectivas, experiências de vida, meio social e familiar. Este é apenas um relato de uma pessoa que saiu da ilusão subliminar contada repetidamente, diariamente, exaustivamente até construir sua “verdade”.

Eu me lembro quando eu tinha dez anos de idade lá no início da década de 80, 1982 especificamente, quando foi realizada a primeira eleição direta para governadores, deputados, prefeitos e vereadores desde os anos 1960. Nesta eleição, o “voto vinculado” era a regra, ou seja, você escolhia um partido e votava nos candidatos daquele partido para todos os cargos, caso contrário seu voto era anulado.

Meu pai, um comerciante que veio da roça e que só tinha estudado até a quarta série, era candidato a vereador pelo PDS, antiga ARENA. Para quem não sabe o que é PDS e ARENA, pois eles adoram trocar de nome para ver se a gente esquece dos seus desatinos, é o que é hoje o DEM (que já foi também PFL) e o PP (que também já foi PPB). Não falei que eles adoram trocar de nomes?

Bom, voltando ao que eu ia dizendo: meu pai era candidato a vereador por este partido porque evidentemente fora convidado a participar da política por ser uma pessoa bem quista na sociedade Leopoldinense (MG), pois além de comerciante e micro-empresário, ele participava de um grupo de orações denominado DECOLORES que além de se reunir para orar e ler trechos da Bíblia, ajudavam a igreja local em projetos sociais para as comunidades carentes.

Lembro-me te estar passeando com ele e visto um muro com diversos cartazes da foice e do martelo cruzados. Uma típica alusão ao comunismo. Eu fiquei assustado e perguntei para ele “pai, o que esses comunistas querem? Eles acham que alguém será capaz de votar nestes nazistas que comem criancinhas?”. Sinceramente, não me lembro da resposta. Talvez ele tenha dito alguma coisa, mas o que ficou na minha memória foi minha perplexidade e indignação, pois jamais imaginava ser possível isto acontecer no Brasil. Vivíamos uma ditadura, mas eu sempre gozei de liberdade. Não senti a repressão na pele. Só a repressão dos meus Pais.

Ele, claro, perdeu a eleição. Não por que as pessoas não gostassem dele, muito pelo contrário. Ele era um dos únicos brancos que frequentava o Clube Cotubas, um clube de negros da cidade. Ele se dava bem com todos, mas perdeu porque as pessoas estavam cansadas da ditadura e o PDS era o partido da situação. Se você pesquisar no Wikipédia verá que basicamente só dois partidos levaram aquela eleição: o PMDB e o PDS. Na minha cidade, venceu o PMDB.

Nunca ouvi do meu pai, ou da minha mãe que comunista era nazista ou que comiam criancinhas. Mas estava no meu imaginário. Talvez, ou muito provavelmente, eu devo ter assistido isto na TV, pois era o único meio de comunicação que eu tinha, além da família, igreja, amigos e escola. Meus pais não tinham ideologia política. Eles eram pessoas simples e religiosas que vieram do campo para a cidade e com muito custo e trabalho conseguiram dar algo para seus filhos que nunca tiveram de verdade: educação. Educaram oito filhos, a maioria de nós formados na faculdade e pós-graduados.

E eles fizeram questão, por já terem uma situação financeira melhor, que os seus dois últimos filhos, eu incluso, estudassem na escola particular das freiras do Colégio Imaculada Conceição. Minha mãe sabia do valor da educação. Ela mesma queria ser professora. Não conseguiu, mas vingou seu desejo em mim e nas minhas irmãs. Minhas irmãs, inclusive, chegaram a ser diretoras de escola. Nossa mãe se orgulhava da gente, mas a gente se orgulha dela mais ainda. Obrigado Terezinha, por não ter desistido de nós.

Bom, voltemos ao comunismo. Quando eu vim morar em Joinville, em 1987, eu fui estudar no colégio Dom Pedro II, uma escola adventista. Eu estava fazendo a oitava série e, nosso professor de história e OSPB, Ismael, adotou, sei lá por que razão, um livro didático escrito pelo Frei Betto. Pimba! Um comunista.

O livro contava a estória de vários garotos e garotas que frequentavam uma escola, cada qual de uma classe social e etnia. Suas diferenças, seus problemas, seus desejos e seus recursos financeiros eram o mote da estória. Ao decorrer do livro ele elencava os diversos tipos de ideologia, dando destaque ao capitalismo, ao socialismo e ao comunismo.

Ele falava de modo simplista o que é a mais-valia, a força de trabalho e como eram as relações entre patrões e empregados, e como os trabalhadores ao longo do tempo foram conquistando direitos como redução de carga-horária, férias, décimo terceiro, fundo de garantia etc. Mostrava também as diferenças de ambas ideologias e deixava para nós, os leitores, tirarmos nossas conclusões.

É lógico que, para um religioso e também comunista, isto não parece combinar muito, mas eu percebi que aquela estória de que comunista era a mesma coisa que nazista e ambos comiam criancinha era balela. Alguém (mídia e governo) implantou aquela ideia na minha cabeça para me confundir e odiar os comunistas. E eu os odiava até ler e entender os conceitos e a filosofia de Marx. E o comunismo combinava com tudo que Jesus Cristo nos ensinou.

Ninguém me disse isso, não estava escrito no livro didático, não havia nenhuma menção ou referência. Eu apenas deduzi baseado em fatos, nos ensinamentos dos meus pais, da própria Igreja e na leitura da Bíblia.

Lógico que li outros livros, lógico que não defendo as barbaridades e crimes cometidos pelos comunistas e pelos estados comunistas ao longo da história. Convenhamos, crer que comunismo é o que foi praticado na URSS, China entre outros países, bem como crer que os crimes e assassinatos cometidos por estes regimes fazem parte da ideologia comunista e que, ser comunista é isto, é como crer que todo o Islã e sua comunidade muçulmana é terrorista e potencialmente um homem-bomba.

É uma ideia simplista, tacanha e atrevo-me a dizer, mal intencionada. Lembra que meu imaginário era que eles comiam criancinhas? Pois é, nesta estória eu não caio mais. Erros cometidos por pessoas e estados comunistas não podem ser atribuídos à ideologia.

Por favor, não estou pedindo para ninguém acreditar em mim. O livro Animal Farm, de George Orwell, aborda o tema. É uma crítica ferrenha sobre o tipo de comunismo e toda a crueldade implantada por Lenin e Stalin na União Soviética. Engraçado é que, após o término da Segunda Guerra, o mesmo livro foi adotado pelos americanos para desconstruir a ideologia comunista. Ele virou desenho animado e filme, mas ambos não refletem a verdadeira crítica de Orwell. É tão somente mais uma forma de manipulação e doutrinação capitalista. Por isso, se tiver interesse, leia o livro.

Traição, corrupção, crueldade e crime não são exclusividade das ideologias. São inerentes ao ser-humano, as pessoas inescrupulosas, sociopatas e criminosas. Nenhuma ideologia pregar isto, seja ela liberal ou progressista. Isto vem de princípios e experiências de vida da própria pessoa.

Voltemos a Jesus Cristo e à minha tese. Retirei apenas sete passagens da Bíblia, para não ser extensivo, que demonstram como Jesus era mais que um profeta. Ele era um também um revolucionário comunista. Vejamos:

1. A vida é mais importante do que a comida, e o corpo, mais do que as roupas.

2. Bem-aventurados os pobres em espírito, pois deles é o Reino dos céus. Bem-aventurados os que choram, pois serão consolados. Bem-aventurados os humildes, pois eles receberão a terra por herança. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão satisfeitos.

3. Portanto, Eu vos recomendo: Usai as riquezas deste mundo ímpio para ajudar ao próximo e ganhai amigos, para que, quando aquelas chegarem ao fim, esses amigos vos recebam com alegria nas moradas eternas.

a charge da acusação de comunista

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4. Não acumulem para vocês tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem destroem, e onde os ladrões arrombam e furtam. Mas acumulem para vocês tesouros no céu, onde a traça e a ferrugem não destroem, e onde os ladrões não arrombam nem furtam. Pois onde estiver o seu tesouro, aí também estará o seu coração.

5. Ninguém pode servir a dois senhores; pois odiará a um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro ao mesmo tempo.

6. Cada um contribua segundo tiver proposto no coração, não com tristeza ou por necessidade; porque Deus ama a quem dá com alegria.

7. Deus está dentro de você e ao seu redor, e não em castelos de pedra ou em mansões de madeira. Levante uma pedra e encontrará Deus. Quebre um pedaço de madeira e Ele estará ali. Quem souber o significado dessas palavras jamais conhecerá a morte.

As principais mensagens de Cristo foram o amor, a humildade, a partilha, a solidariedade e a compaixão. Isto, na visão, se encaixa perfeitamente ao Comunismo. Sei que é uma utopia, assim como o Anarquismo. Talvez por isso, ele tenha sido crucificado. Mas o Socialismo não. Ele é real, e se você aproximar sua lente aos países como Finlândia e Suécia, verá que a social democracia é justamente o caminho para o qual devamos trilhar.

Para terminar, deixo aqui um trecho do discurso do Papa Francisco no encontro com os Movimentos Sociais. Vejam só o que ele disse:

“Chamam-me de comunista, mas é Jesus que ama os pobres.”

“Terra, teto e trabalho. É estranho, mas se eu falo disso, o Papa é um comunista.”

“Não se compreende que o amor pelos pobres é o centro do Evangelho. Terra, casa e trabalho, aquilo para o qual vocês lutam, são direitos sagrados. Exigir tais coisas, de fato, não é algo estranho, é a doutrina social da Igreja.”

“Enfrentar o escândalo da pobreza não é uma ideologia, tem tudo a ver com a solidariedade que em sentido profundo significa fazer história e lutar contra as causas estruturais da desigualdade fazendo frente aos efeitos destrutivos do império do dinheiro.”

“Os pobres não esperam de braços cruzados a ajuda de ONGs ou planos assistenciais. Ponham os pés na lama e as mãos na carne. Tenham cheiro de bairro, de povo, de luta sobre as falhas de um sistema econômico centrado no deus do dinheiro, da grilagem, da pilhagem da natureza.” 

“O crime da fome, da miséria daqueles que estão nas ruas e são chamados de sem-teto, o excedente da mão de obra. Em geral, por trás de um eufemismo tem um delito.”

Agradeço ao Frei Betto por abrir minha mente e me libertar. Agradeço por me salvar da loucura e crueldade do fascismo, do preconceito e da megalomania do capitalismo. Obrigado por me fazer sair da Caverna de Platão, ou como se diz hoje em dia, da Matrix.

Agradeço ao professor Ismael por, mesmo sendo um adventista, ter sido imparcial e adotado o livro que esclareceu e desconstruiu a ‘verdade’ imposta pelo sistema. Hoje sou um outro homem. Um homem livre, cristão e socialista.

E antes que me crucifiquem como fizeram com Ele, deixo-vos mais uma mensagem do Mestre:

“Por que você repara no cisco que está no olho do seu irmão, e não se dá conta da viga que está em seu próprio olho? Como você pode dizer ao seu irmão: ‘Deixe-me tirar o cisco do seu olho’, quando há uma viga no seu? Hipócrita, tire primeiro a viga do seu olho, e então você verá claramente para tirar o cisco do olho do seu irmão.”

Deixe seus preconceitos de lado, a doutrina subliminar e tente enxergar além do olho de Tandera. Leia, antes de tudo, para depois formar sua opinião.

Abraços, e fiquem com Deus.