Os Caminhoneiros e a Intervenção Militar

A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa… Então, vamos ler os livros de história.

 

Esses dias, em uma loja de conveniência de um posto de combustível, uma pessoa (não era o dono do posto) disse-me de desejaria que todos se juntassem aos motoristas e parassem o Brasil para protestar contra os aumentos, os impostos e contra corrupção, com a finalidade de derrubar esse governo.

Ok, mas porque não fizeram antes? Ora, Temer foi pego com a boca na botija, seu capanga foi filmado correndo com uma mala cheia de dinheiro… Aquele era o momento. O timing passou.

Agora que os caminhoneiros pararam o Brasil, os alimentos estão faltando, remédios, insumos de todos os tipos. Os produtores estão perdendo seus produtos, comerciantes não tem mais o que vender. Quem tem produto está aumentando o preço. A velha lei da oferta e da procura. Postos de gasolina vendendo o combustível por 10 reais. O prejuízo para o Brasil é enorme.

 

Os  caminhoneiros fizeram sua parte, pressionaram o governo e ganharam todas suas reivindicações. Agora, quem vai pagar essa conta somos todos nós, a população.

O que mais me assustou foi uma parte mínima (ainda bem temos esperanças) da população pedindo a intervenção militar… Vou te contar uma coisa: a última vez que a população pediu a intervenção militar, os militares assumiram o governo e deram 2 golpes, ficaram 20 anos no poder, mataram e torturaram muita gente. Perdemos direitos, levamos porrada, perdemos compatriotas.

 

Hoje, nenhum militar de responsabilidade quer guerra civil novamente. O Comandante do Exército Brasileiro, General Villas Boas, disse que ordem é “buscar solução sem conflitos”. Clique no link abaixo e leia a matéria completa. E, nenhum general do comando militar quer entrar na política também porque sabem que esse não é seu lugar. Eles fizeram isso no passado e se arrependeram. Então, antes de pedir a ordem (o que também sou favorável) e o progresso (o que também quero) aos militares, peça ordem ao político em que você votou. Peça ao seu político o progresso. Você se lembra o nome dele? Se sim, cobre-o, se não, anote os nomes nas próximas eleições.

Teremos eleições esse ano. Esse governo está na UTI e não demorará muito para morrer. Irá morrer e um novo Brasil renascerá. Acredite. Agora, vamos aos livros de história.

 

Boa semana a todos!

Prof. Victor Vargas

Link: http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2018-05/comandante-do-exercito-diz-que-ordem-e-buscar-solucao-sem-conflitos

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Sextou! E hoje vai dar PT!

Para quem não sabe, PT é popularmente conhecido como Perda Total.

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Hoje, sexta-feira 6 de Abril, é o dia que ficará para a História do Brasil com a prisão de Lula. Lula vai ser preso sim, depois de uns meses será posto em liberdade e convenhamos, vai ser bom para o Brasil. Explico.

O decreto da prisão de Lula determina que ele se apresente até hoje. Decretada por Moro, juiz-herói dos coxinhas, a prisão de Lula é aguardada por todos. Desejada por muitos. Eu diria uns 49% da população. Quem nunca votou no Lula ou no PT, vai soltar foguetes. Vai tomar Champanhe, pagar churrasco e cerveja aos amigos. Hoje é festa, amanhã é ressaca! Quem sempre votou no PT e no Lula, vai chorar as mágoas, as pitangas, vai dizer que é golpe, que é perseguição política. Hoje é velório, amanhã é luta! E quem, como eu, que observa do lado de fora da polarização esquerda X direita; nós X eles; coxinhas X mortadelas; ricos X pobres; burgueses X proletários; zona sul X zona norte; fica triste e feliz, e chega a algumas conclusões.

Triste porque muitos de nós brasileiros não estamos preocupados em combater a criminalidade e corrupção, estamos procurando um culpado, no caso, o Lula, seu bode expiatório. Prende-se o Lula e a corrupção acaba? Comemora-se a prisão do Lula, mas, e o Aécio, o Temer, o Moreira, o Jucá, o Lourdes, o Serra, os irmãosleys e todos os outros? Serão presos? Iremos comemorar e soltar os foguetes e tomar Champanhe? Mas é o Lula, o chefe da quadrilha para o Dallagnol. Mas para Obama, ele é o cara! Triste assistir de mãos atadas um povo refém de quem os manipula, seja à esquerda, seja à direita.

Feliz porque a prisão em 2a instância dá uma sensação de punibilidade a muito tempo não vista no Brasil, principalmente para os crimes do colarinho branco. “A Justiça está funcionando” iremos dizer. “Os criminosos e corruptos estão sendo presos” será a frase recorrente. O problema ou solução está na Constituição e aí concluo. O Art. 5, inciso LVII da Constituição Federal, é claro: “Ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado da sentença penal condenatória”. Então me vem à mente 4 perguntas e 4 conclusões ou respostas.

PERGUNTA 1: Pode a Justiça prender um “não considerado culpado”, cuja sentença penal não foi totalmente transitada e julgada?

A solução está, como disse, na Constituição. O Texto da Constituição não permite conclusão definitiva, mas idas e vindas da jurisprudência do STF geram insegurança jurídica e possíveis injustiças. Minha opinião é que se ainda não é totalmente culpado, não deveria ser totalmente preso.

PERGUNTA 2: É possível ocorrer arbitrariedades e prisões indevidas por parte dos magistrados? Pode a Justiça ser injusta e falhar?

Não deveria, mas sim, pode acontecer. E acontece. Afinal é um sistema humano e como todo sistema feito por humanos, é passível de erro, envolve egos e interesses, mesmo para desembargadores, juízes, e promotores que deveriam ser isentos e éticos.

PERGUNTA 3: O que vai acontecer até as eleições?

Lula não irá concorrer e isso é fato. Seu processo continua rolado e sempre há os recursos para instâncias superiores. A defesa de Lula irá usá-las. Ele vai penar para sair da cadeia, mas vai sair, gostemos ou não. Mas não a tempo para concorrer. O PT terá que lançar outro candidato ou apoiar um candidato posto, coisa que acho muito difícil. Se o PT lançar um candidato e se você é eleitor do Lula e crê na sua inocência, com certeza ele irá influenciar seu voto em um candidato do PT, mesmo preso. Mas essa influência só irá atingir, na minha opinião, apenas 10% do eleitorado tradicional de Lula. Isso é o máximo de votos que terá o candidato do PT, novamente volto a repetir, na minha opinião.

PERGUNTA 4: Bolsonaro, Marina, Ciro ou Alckmin? Quem é o favorito numa eleição sem Lula?

Ciro tem maior crescimento proporcional de votos com Lula fora da disputa. Marina também cresce muito. Porém, o que mais aumenta é a quantidade de votos brancos e nulos. Os demais eleitores de Lula, que não são petistas, irão pulverizar seus votos em Boulos, Manuela, e pasmem, Bolsonaro. Sim, tenho amigos que votam ou em Lula ou em Bolsonaro.

Em simulações feitas pelo Datafolha em Novembro/2017, os candidatos registraram (maior percentual alcançado entre todos os cenários) as seguintes porcentagens de votos com e sem Lula no páreo. De lá para cá, pouca coisa mudou, mas há indícios e sinais do que irá acontecer.

Bolsonaro: 19% com Lula, 22% sem Lula.

Marina Silva: 11% com Lula, 17% sem Lula.

Ciro Gomes: 7% com Lula, 13% sem Lula.

Geraldo Alckmin: 9% com Lula, 12% sem Lula.

Joaquim Barbosa: 6% com Lula, 8% sem Lula.

Álvaro Dias: 4% com Lula, 6% sem Lula.

Fernando Haddad: 0% com Lula, 3% sem Lula.

Manuela D’Ávila: 2% com Lula, 3% sem Lula.

Henrique Meirelles: 1% com Lula, 2% sem Lula.

Branco/nulo: 14% com Lula, 30% sem Lula.

Não sabe: 5% com Lula, 5% sem Lula.

Portanto, na minha percepção, conforme o crescimento, estacionamento e declínio dos candidatos, é possível antecipar os cenários e me arrisco a predizer quem será o próximo Presidente do Brasil. Claro, novamente, na minha opinião e percepção.

CENÁRIO POSSÍVEL: Marina Silva X Jair Bolsonaro

CENÁRIO IMPOSSÍVEL: Ciro Gomes X Marina Silva

CENÁRIO MAIS PROVÁVEL: Ciro Gomes X Geraldo Alckmin

CENÁRIO MENOS PROVÁVEL: Jair Bolsonaro X Ciro Gomes

CENÁRIO IMPROVÁVEL: Geraldo Alckmin X Jair Bolsonaro

CENÁRIO IMPENSÁVEL: Marina Silva X Geraldo Alckmin

CENÁRIO NÃO COGITADO: Jair Bolsonaro X Joaquim Barbosa

Tenho a leve impressão que esta eleição está mais para Ciro Gomes ou Geraldo Alckmin (este último citado na lista da Odebrecht) mesmo ambos não sendo líderes nas pesquisas atuais. Na reta final, creio, ambos irão crescer e Ciro terá amplo apoio dos setores progressistas e poderá vencer. E isso vai ser bom para o Brasil. Na minha opinião.

E Para quem de fato, quer saber mais e tirar suas próprias conclusões, deixo aqui alguns links que me ajudaram a escrever esse artigo.

https://bit.ly/2IySM0K

https://bit.ly/2qcE2hd

https://bit.ly/2Eqln5P

https://bit.ly/2GCX76D

Forte abraço, e vocês já sabem: juntos #agenteconsegue

Victor Vargas de Andrade

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Só de Sacanagem – Elisa Lucinda

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Meu coração está aos pulos!
Quantas vezes minha esperança será posta a prova?
Por quantas provas terá ela que passar?
Tudo isso que está aí no ar: malas, cuecas que voam entupidas de dinheiro, do meu dinheiro, do nosso dinheiro que reservamos duramente pra educar os meninos mais pobres que nós, pra cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais.
Esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e eu não posso mais.
Quantas vezes, meu amigo, meu rapaz, minha confiança vai ser posta a prova?
Quantas vezes minha esperança vai esperar no cais?
É certo que tempos difíceis existem pra aperfeiçoar o aprendiz, mas não é certo que a mentira dos maus brasileiros venha quebrar no nosso nariz.
Meu coração tá no escuro. A luz é simples, regada ao conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó e os justos que os precederam.
‘Não roubarás!’, ‘Devolva o lápis do coleguinha’, ‘Esse apontador não é seu, minha filha’.
Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido que escutar! Até habeas corpus preventivo, coisa da qual nunca tinha visto falar, e sobre o qual minha pobre lógica ainda insiste: esse é o tipo de benefício que só ao culpado interessará!
Pois bem, se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear!
Mais honesta ainda eu vou ficar! Só de sacanagem!
Dirão: ‘Deixe de ser boba! Desde Cabral que aqui todo mundo rouba!
E eu vou dizer: ‘Não importa! Será esse o meu carnaval! Vou confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos.’ Vamo pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês.
Com o tempo, a gente consegue ser livre, ético e o escambau.

O Lucro Ou As Pessoas

Reproduzo aqui trechos do livro O Lucro Ou As Pessoas, uma coletânea de artigos escrito por Noam Chomsky, linguista e filósofo norte-americano.

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Enquanto isso, as privatizações saem na frente, a passos rápidos, em outros lugares. Para que se cite um caso da maior importância, o governo brasileiro decidiu, passando por cima de uma considerável oposição popular, privatizar a Companhia Vale do Rio Doce, que controla imensas fontes de urânio, ferro e outros minerais, além de instalações industriais e transportes com sofisticada tecnologia. A Vale é uma empresa altamente lucrativa, com receita de mais de 5 bilhões de dólares em 1996, e com excelentes perspectivas; é uma das seis emPresas latino-americanas ranqueadas entre as 500 mais lucrativas do mundo. Um estudo feito por especialistas da Coordenação dos Programas de Pós-Graduação da Escola de Engenharia da UFRJ estimou que o governo brasileiro sub-avaliou seriamente a companhia, observando também que ele se baseou na análise “independente” da Merril Lynch, que, por acaso, é associada ao grupo anglo-americano que pretende assumir o controle desse componente central da economia brasileira. O governo rebate veementemente essas conclusões. Se elas estiverem certas, estaremos diante de uma situação bastante familiar.

Nos trabalhos sobre a história dos negócios nos Estados Unidos, é comum considerar como tema principal o fato de que “as empresas modernas tomaram o lugar dos mecanismos de mercado na coordenação das atividades econômicas e na alocação de recursos”, sendo muitas transações manejadas internamente, o que constitui outro grande desvio dos princípios do mercado. Mas há outros. Consideremos, por exemplo, o destino do princípio smithiano de que a livre movimentação de pessoas – através das fronteiras, por exemplo – é um componente essencial do livre comércio. Quando nos transportamos para o mundo dos conglomerados transnacionais, com suas alianças estratégicas e o suporte essencial de Estados poderosos, o hiato entre doutrina e realidade toma-se evidente.

Vale a pena notar que, em segredo, as intenções costumam ser expressas com franqueza. Por exemplo, no período imediatamente posterior à II Grande Guerra, George Kennan, um dos mais influentes planejadores e considerado grande humanista, atribuiu a cada parte do mundo a sua “função”: a função da África era ser “explorada” para a reconstrução da Europa, observou ele; os Estados Unidos tinham pouco interesse no continente. Um ano antes, um estudo de planejamento de alto nível exortara que “o desenvolvimento cooperativo de gêneros alimentícios e matérias primas baratas no norte da África poderia ajudar a forjar a unidade européia e a criar uma base econômica para a recuperação do continente”, um interessante conceito de “cooperação”.70 Não há registro de nenhuma sugestão no sentido de a África “explorar” o Ocidente para recuperar-se do “meliorismo global” dos séculos anteriores.

A mim, a realidade parece bem diferente. O atual leque de políticas públicas em discussão tem tão pouca relevância programática quanto seus numerosos antecedentes: nem os Estados Unidos nem qualquer outro poder orientaram-se pelo “meliorismo global”. A democracia está sendo atacada no mundo inteiro, até mesmo nos principais países industrializados; pelo menos a democracia no sentido significativo da palavra, que supõe oportunidades para as pessoas tratarem de seus próprios assuntos coletivos e individuais. Algo similar vale para os mercados. Os ataques à democracia e aos mercados estão profundamente relacionados. Suas raízes estão fincadas no poder de entidades empresariais cada vez mais interconectadas, cada vez mais dependentes de estados poderosos e menos controláveis pelo público. O imenso poder dessas entidades vem crescendo como resultado de uma política social que está globalizando o modelo estrutural do Terceiro Mundo, com setores incrivelmente ricos e privilegiados lado a lado com o aumento “da parcela dos que irão labutar sob as agruras da vida e alimentar secretas aspirações de uma distribuição mais igualitária de suas bênçãos”, como previu James Madison, o principal estruturador da democracia norte-americana, há dois séculos, Essas opções políticas são absolutamente evidentes nas sociedades anglo-americanas, mas se estendem por todo o mundo. Elas não podem ser atribuídas àquilo que o “livre mercado decidiu em sua infinita e misteriosa sabedoria”33, ao “ímpeto implacável da ‘revolução do mercado”‘, ao “inflexível individualismo da era Reagan”, nem à “nova ortodoxia” que “dá rédea solta ao mercado”. Ao contrário, a intervenção estatal, desempenha um papel decisivo, como no passado, e os contornos básicos dessas políticas dificilmente podem ser vistos como novidade. As versões atuais refletem a “clara subjugação do trabalho pelo capital” durante mais de quinze anos, segundo a imprensa de negócios, que relata freqüentemente, com precisão, as concepções de uma comunidade de negócios altamente consciente de sua condição e dedicada à guerra de classes.

Se essas idéias são válidas, então o caminho para um mundo mais justo e mais livre está muito afastado do campo delimitado pelo privilégio e pelo poder. Não pretendo aqui provar essa conclusão, mas apenas sugerir que ela é verossímil o bastante para ser analisada com atenção. E pretendo sugerir ainda que as doutrinas predominantes dificilmente sobreviveriam se não fosse por sua contribuição para a “arregimentação da opinião pública, da mesma forma como um exército arregimenta seus soldados”, para citar novamente Edward Bernays, quando expôs ao mundo dos negócios as lições que haviam sido aprendidas com a propaganda do tempo de guerra.

Enquanto isso, o mundo dos negócios alertava para o “risco com que se defrontavam os industriais” no “recém-percebido poder político das massas” e para a necessidade de livrar e vencer “a perpétua batalha pelas mentes dos homens” e “doutrinar os cidadãos com a crônica do capitalismo” até que “eles sejam capazes de repeti-la com absoluta fidelidade”; e assim por diante, numa torrente impressionante, acompanhada por esforços ainda mais impressionantes.

Para descobrir o verdadeiro sentido dos “princípios políticos e econômicos” ditos “a onda do futuro”, é evidentemente necessário ir além dos floreios retóricos e pronunciamentos públicos e investigar a prática efetiva e os documentos internos. O exame cuidadoso de casos particulares é o caminho mais frutífero, mas eles devem ser escolhidos com muito cuidado, para que apresentem um quadro justo. Há algumas diretrizes naturais. Um método razoável é tomar os exemplos escolhidos pelos próprios proponentes das doutrinas, os seus casos mais fortes. Outro é investigar documentos em que é máxima a influência e mínima a interferência, de forma que possamos enxergar os princípios operativos em sua forma mais pura. Se queremos determinar o que o Krernlin entendia por “democracia” e “direitos humanos”, devemos dar pouca importância às solenes denúncias do Pravda sobre o racismo nos Estados Unidos e o terror estatal de seus regimes clientes, e muito menos aos reclamos de suas nobres motivações. Muito mais instrutivo é a realidade das “democracias populares” no Leste europeu. Essa é uma questão elementar que se aplica também ao auto-designado “guardião e modelo”. A América Latina é a área de testes óbvia, especialmente a América Central e o Caribe. Aqui, Washington enfrentou poucos desafios externos durante quase um século, de modo que os princípios norteadores da sua política, assim como do atual “Consenso [neoliberal] de Washington”, se revelam de um modo claríssimo quando examinamos a situação da região e como se chegou a ela.

É de certo interesse o fato de que este tipo de exercício raramente é realizado e, quando proposto, seja acusado de extremista ou coisa pior. Deixo-o como um “exercício para o leitor”, apenas chamando a atenção para o fato de que esta história contém lições úteis sobre os princípios econômicos e políticos do que vem a ser a “onda do futuro”.

A dita “cruzada pela democracia” de Washington foi empreendida com particular fervor durante os anos Reagan, tendo sido escolhida a América Latina como campo de manobras. Seus resultados são usualmente apresentados como o principal exemplo de como os Estados Unidos vieram a se tomar a “inspiração para o triunfo da democracia em nosso tempo”, para citar os editores de uma das principais publicações teóricas do liberalismo norte-americano.37 O mais recente artigo acadêmico sobre a democracia descreve o “renascimento da democracia na América Latina” como “impressionante”, mas não isento de problemas; os “obstáculos à sua implementação” ainda são “formidáveis”, mas talvez possam ser superados por meio de uma maior integração com os Estados Unidos. O autor, Sanford Lakoff, assinala o “histórico Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA) como um instrumento de democratização potencial. Nessa região de tradicional influência dos Estados Unidos, escreve, os países marcham em direção à democracia depois de terem “sobrevivido a intervenções militares” e “perversas guerras civis”.

Grandes mudanças ocorreram na ordem global no último quarto de século. Em 1970, a “aliança afluente” dos anos do pós-guerra começava a fazer água e crescia a pressão sobre os lucros das grandes empresas. Reconhecendo que os Estados Unidos não podiam mais desempenhar o papel de “banqueiro internacional” que fora tão benéfico para as multinacionais baseadas em território norte-americano, Richard Nixon desmantelou a ordem econômica internacional (o sistema de Bretton Woods), suspendendo a convertibilidade do dólar em ouro, impondo controles sobre os salários, sobretaxas de importação e medidas fiscais para colocar o poder do Estado, ainda mais do que antes, a serviço da prosperidade dos ricos. Desde então, esta tem sido a política dirigente, acelerada durante os anos de Reagan e mantida pelos “Novos Democratas”. Intensificou-se a incessante guerra de classes livrada por setores empresariais corporativos, do escala global.

Os movimentos de Nixon foram um dentre uma série de fatores que levaram a um enorme crescimento do capital financeiro não regulado e a uma mudança radical do seu uso, do comércio e o investimento a longo prazo para a especulação. Eles lograram debilitar o planejamento econômico dos países, uma vez que os governos foram compelidos a preservar a “credibilidade” do mercado, empurrando suas economias para um “equilíbrio de baixo crescimento e forte desemprego”, como diz o economista John Eatwell, da Universidade de Cambridge, com salários reais estagnados ou declinantes, pobreza e desigualdade crescentes e mercados e lucros em expansão para uma minoria. O processo associado de internacionalização da produção proporciona novas armas para enfraquecer os trabalhadores do Ocidente, que têm de aceitar a perda de seu “luxuoso” modo de vida e concordar com a “flexibilização do mercado de trabalho” (a pessoa não saber se terá emprego no dia seguinte), rezam com alegria os cadernos de negócios. O retomo da maior parte da Europa Oriental às suas origens terceiro-mundistas realça consideravelmente tais perspectivas. O ataque aos direitos dos trabalhadores, aos padrões sociais e à democracia efetiva em todo o mundo é o produto dessas vitórias.

O triunfalismo desses pequenos setores de elite é bastante compreensível, assim como o desespero e o ódio dos que não pertencem aos círculos de privilegiados.

A revolta dos índios camponeses de Chiapas no dia de Ano-Novo pode ser prontamente entendida neste contexto geral. Ela coincidiu com a aprovação do NAFTA, que o exército zapatista chamou de “uma sentença de morte” para os índios, um presente para os ricos que aprofundará o fosso entre a extrema concentração da riqueza e a miséria das massas e destruirá o que resta da sociedade nativa.

A conexão NAFTA é em parte simbólica; os problemas são, em verdade, muito mais profundos. “Somos o produto de 500 anos de luta”, dizia a declaração de guerra zapatista. Nossa luta hoje é “por trabalho, terra, moradia, alimentos, saúde, educação, independência, liberdade, democracia, justiça e paz”. “Sua verdadeira origem”, acrescentou o vigário-geral da diocese de Chiapas, “é a completa marginalização, a pobreza e a frustração de tantos anos de luta para melhorar a situação”.

Os índios camponeses são as maiores vítimas das políticas do governo mexicano. Mas sua aflição é compartilhada por muitos. “Quem quer que tenha tido a oportunidade de estar em contato com os milhões de mexicanos que vivem na extrema pobreza sabe que estamos convivendo com uma bomba-relógio”, observou a jornalista mexicana Pilar Valdes.

Em dez anos de reformas econômicas, o número de pessoas vivendo na pobreza absoluta aumentou em um terço nas áreas rurais. Metade da população total não dispõe de recursos para atender às suas necessidades básicas, um crescimento dramático desde 1980. Seguindo a receita do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial, a produção agrícola foi substituída pela agro- exportação e pelas pastagens, beneficiando a agroindústria, os consumidores estrangeiros e os setores afluentes do país, enquanto a desnutrição veio a se tomar um dos principais problemas de saúde, o emprego agrícola declinou, as terras produtivas foram abandonadas e o México passou a importar enormes quantidades de alimentos. Os salários reais da indústria caíram verticalmente. A parcela do trabalho no PIE, que vinha subindo até meados da década de 1970, declinou, desde então, em mais de um terço. São as típicas conseqüências das reformas neoliberais. Estudos do FMI mostram “um padrão forte e consistente de redução da parcela do trabalho na renda total” sob o impacto dos seus “programas de estabilização” na América Latina, observa o economista Manuel Pastor.

O Secretário de Comércio mexicano saudou a queda dos salários como um incentivo ao investimento estrangeiro. E assim é, junto com a eliminação de postos de trabalho, a coação ao afrouxamento de restrições ambientais e o direcionamento da política social para satisfazer as ambições da minoria privilegiada. Essas políticas são bem-vindas, é claro, para as instituições industriais e financeiras que estendem seu controle sobre a economia global, com a assistência de acordos falsamente rotulados como de “livre mercado”.

Existe a expectativa de que o NAFTA force uma grande quantidade de camponeses a abandonar suas terras, contribuindo para a miséria no campo e o barateamento da mão-de-obra na indústria. O emprego industrial, que diminuiu sob as reformas, deverá cair ainda mais. Um estudo do mais importante jornal empresarial mexicano, o El Financeiro, previu que o México perderia quase 25 por cento da sua indústria manufatureira e 14 por cento do emprego atual nos dois anos seguintes. Segundo Tim Golden, do New York Times, “Os economistas prevêem que milhões de mexicanos deverão perder os seus empregos nos primeiros cinco anos de vigência do NAFTÀ”. Tais processos farão diminuir ainda mais os salários, na mesma medida em que farão crescer os lucros e a polarização da sociedade, com repercussões previsíveis nos Estados Unidos e no Canadá.

Grande parte do apelo do NAFTA, conforme sublinham regularmente os seus mais ardorosos defensores, está no fato de que ele “amarra” as reformas neoliberais que reverteram anos de progresso dos direitos trabalhistas e do desenvolvimento econômico, trazendo pobreza e sofrimento em massa, junto com o enriquecimento de uma minoria de mexicanos e investidores estrangeiros. Para a economia mexicana em geral, essa “virtude econômica” trouxe “poucas recompensas”, segundo observou o Financial Times, de Londres, ao analisar “oito anos de políticas de mercado saídas dos livros de economia”, que geraram um baixo crescimento, atribuído, em sua quase totalidade, à assistência financeira do Banco Mundial e dos Estados Unidos. As altas taxas de juro reverteram parcialmente à imensa evasão de capitais que era um dos principais fatores da crise de endividamento mexicana, embora o serviço da dívida seja um ônus crescente, cujo maior componente atualmente é a dívida interna do governo com os mexicanos ricos.

Um “Comunicado dos Bispos Mexicanos sobre o NAFTA” condenou o acordo e também a política econômica do qual ele faz parte, devido aos seus efeitos sociais deletérios. Os bispos reiteraram a preocupação da conferência de bispos latino-americanos de 1992, de que “a economia de mercado não se tome um absoluto ao qual tudo deva ser sacrificado, aumentando a desigualdade e a marginalização de grande parte da população” – o provável impacto do NAFTA e de outros acordos sobre os direitos dos investidores. A reação da comunidade de negócios mexicana foi variada: os elementos mais poderosos apoiaram o acordo, ao passo que as pequenas e médias empresas e suas organizações foram dúbias ou hostis. O mais importante jornal mexicano, Excelsior, previu que o NAFTA beneficiaria apenas “aqueles ‘mexicanos’ que hoje são donos de quase metade do país (15 por cento detêm mais da metade do PIB)”, “uma minoria dês-mexicanizada”, e constituiria uma nova fase da “história dos Estados Unidos em nosso país”, uma “história de abusos e pilhagens impunes”. O acordo teve também a oposição de muitos trabalhadores (incluindo o maior sindicato não- governamental) e de outros grupos, que advertiram para o impacto sobre os salários, os direitos trabalhistas e o meio ambiente, para a perda da soberania nacional, a crescente proteção dos direitos dos investidores e das empresas e a corrosão das possibilidades de crescimento sustentável. Homero Aridjis, presidente da mais importante organização ambiental mexicana, deplorou “a terceira conquista do México. A primeira, militar, a segunda, espiritual, e a terceira, econômica”.

Não demorou muito para que tais temores se concretizassem. Pouco depois de o NAFTA ter sido aprovado no Congresso, trabalhadores foram demitidos nas fábricas da Honeywell e da GE por tentar organizar sindicatos independentes. A Ford Motor Company despedira todos os seus operários em 1987, desconhecendo o acordo sindical e re-contratando trabalhadores por salários muitos menores. Os protestos que se seguiram foram energicamente reprimidos. Em 1992, foi a vez da Volkswagen, que demitiu 14 mil operários e readmitiu somente aqueles que repudiaram os líderes dos sindicatos independentes, com o apoio do governo. Esses são os componentes centrais do “milagre econômico” que o NAFTA vai “amarrar”.

Poucos dias depois da votação do NAFTA, o Senado dos Estados Unidos aprovou “o mais extraordinário pacote anticrime da História (senador Orrin Hatch)’, que continha a incorporação de cem mil novos policiais, prisões regionais de segurança máxima, campos de treinamento para jovens infratores, extensão da pena de morte e sentenças mais severas, além de outras duras medidas. Especialistas em segurança pública entrevistados pela imprensa duvidaram de que a nova legislação pudesse ter um efeito significativo contra o crime, uma vez que não cuidava das “causas da desintegração social que produz os criminosos(violentos”. As principais dentre elas são as políticas econômicas e sociais que polarizam a sociedade americana, e que o NAFTA colocou alguns furos acima. Os conceitos de “eficiência” e “economia saudável”, prediletos dos ricos e privilegiados, não têm nada a oferecer aos crescentes setores da população que não dão lucro e que são empurrados para a pobreza e o desespero. Se não puderem ser confinados nas favelas, terão de ser controlados de um outro modo qualquer.

No dia seguinte à votação do NAFTA no Congresso, o New York Times publicou a sua primeira análise sobre os efeitos esperados do acordo na região de Nova York. Era uma análise otimista, coerente com o apoio entusiástico recebido em toda parte. Enfocava os prováveis beneficiários: os setores “financeiros e afins”, “os bancos regionais, as telecomunicações e as empresas prestadoras de serviços”, companhias de seguros, investidoras, empresas de serviços jurídicos, a indústria de relações públicas, as consultorias de negócios e congêneres. Previa ainda que algumas empresas manufatureiras poderiam ganhar, principalmente as de tecnologia de ponta, as editoras e os laboratórios farmacêuticos, que se beneficiariam das medidas protecionistas elaboradas para garantir às grandes empresas o controle da tecnologia do futuro. De passagem, o artigo mencionava que também haveria perdedores, “predominantemente mulheres, negros e hispânicos”, além dos “trabalhadores não-especializados” em geral, isto é, a maioria da população de uma cidade onde 40 por cento das crianças já vivem abaixo da linha de pobreza, sofrendo de deficiências de saúde e instrução que as “amarram” a um amargo destino.

A versão aprovada do NAFTA provavelmente acelerará um “desenvolvimento positivo de transcendental importância” (Wall Street Joumal): a redução do custo da força de trabalho norte- americana a níveis bem abaixo de todos as potências industriais à exceção da Inglaterra. Em 1985, os Estados Unidos situavam-se no topo da lista das sete maiores economias capitalistas (0-7), como era de esperar do país mais rico do planeta. Numa economia mais integrada, o impacto é mundial, uma vez que os competidores precisam se acomodar. A OM pode se mudar para o México ou agora para a Polônia, onde encontra quem se disponha a trabalhar por uma fração do valor do trabalho no Ocidente e está protegida por altas tarifas e outras restrições. A Volkswagen pode se mudar para a República Tcheca para desfrutar de proteção semelhante, recolhendo os lucros e deixando o governo com os custos. A Dairnler-Benz pode fazer arranjos do mesmo tipo no Alabama. O capital pode se mover livremente; os trabalhadores e as comunidades ficam com as conseqüências. Ao mesmo tempo, o gigantesco crescimento do capital especulativo não regulado impõe pesadas pressões sobre as políticas governamentais de estímulo à produção.

Muitos fatores estão empurrando a sociedade global em direção a um futuro de baixos salários, baixo crescimento e elevados lucros, com polarização f desintegração social crescentes. Outra conseqüência é o esmorecimento dos processos democráticos significativos, à medida que a tomada de decisões é transferida às instituições privadas e estruturas para-governamentais que se vão aglutinando à sua volta, aquilo que o Financial Times chama de “governo mundial de fato”, que opera em segredo e não tem nenhum controle público.

Esses desenvolvimentos têm muito pouco a ver com o liberalismo econômico, um conceito de limitada significância num mundo no qual uma vasta parcela do “comércio” consiste de transações intra-empresas, centralmente administradas (metade das exportações norte-americanas para o México antes do NAFTA, por exemplo – “exportações” que nunca chegaram a entrar no mercado mexicano). Ao mesmo tempo, o poder privado exige e recebe, como no passado, proteção estatal contra as forças do mercado.

“Os zapatistas realmente mexeram com a sensibilidade de um amplo segmento das massas populares mexicanas”, comentou o cientista político mexicano Eduardo Gallardo, pouco depois da insurreição, prevendo que suas repercussões seriam de longo alcance, incluindo passos no sentido da derrubada da longa ditadura eleitoral mexicana. Pesquisas realizadas no país confirmaram esse ponto de vista, dando conta do apoio da maioria às razões apresentadas pelos zapatistas para a insurreição. A mesma sensibilidade foi tocada no mundo inteiro, até mesmo nas sociedades industriais ricas, onde muitas pessoas reconheceram que as preocupações dos zapatistas não eram diferentes das suas próprias, apesar das circunstâncias tão diversas. O apoio dessas pessoas foi ainda mais estimulado pelas criativas ações zapatistas dirigidas aos setores mais amplos da população, visando engaja-los em esforços conjuntos ou paralelos para assumir o controle de suas vidas e seu destino. A solidariedade mexicana e internacional foi, sem dúvida, fator preponderante para inibir a brutal repressão militar que se previa e teve um espetacular efeito energizante sobre a organização e o ativismo em todo o mundo.

O protesto dos índios camponeses em Chiapas é somente um vislumbre de outras “bombas- relógio” prestes a explodir e não apenas no México. Boa parte deste artigo foi publicada pela primeira vez em In These Times, em 21 de fevereiro de 1994.

A “construção da América das sociedades anônimas” ao longo do último século foi um ataque à democracia – e aos mercados, e é parte da transformação de algo que se assemelhava ao “capitalismo” nos mercados fortemente administrados da moderna era do Estado e das S.A. Uma variante atual é chamada de “diminuição do Estado”, ou seja, a transferência do poder decisor da arena pública para outros lugares: “para as pessoas”, na retórica do poder; para as tiranias privadas, no mundo real. Todas essas medidas são projetadas para limitar a democracia e domar a “gentalha”, como era chamada a população por aqueles que se auto-designavam “homens bons” na Inglaterra do século 17, ao tempo da primeira irrupção da democracia na época moderna; os auto-designados “homens responsáveis” de hoje. Os problemas básicos persistem, assumindo formas sempre novas, suscitando novas medidas de controle e marginalização e conduzindo a novas formas de luta popular.

Os chamados “acordos de livre comércio” são um desses dispositivos de enfraquecimento da democracia. Eles são projetados para transferir a tomada de decisões que afetam a vida e as aspirações das pessoas para o âmbito de tiranias privadas que operam em segredo, sem qualquer supervisão ou controle público. Não surpreende que o público não goste delas. A oposição é quase instintiva, um tributo ao cuidado que se toma para isolar a gentalha da informação e do conhecimento relevantes.

A maior parte desse quadro é tacitamente admitida. Acabamos de testemunhar um outro exemplo: o empenho com que se tentou, nos últimos meses, aprovar o Fast Track, legislação que permitiria ao Executivo negociar acordos comerciais diretamente, sem a supervisão do Congresso nem o conhecimento do público; um mero “sim” ou “não” bastaria. O Fast Track gozava de apoio quase unânime no interior dos sistemas de poder, mas, como observou pesarosamente o Wall Street Journal, os seus adversários talvez tenham uma “arma definitiva”: a maioria da população. As pessoas continuaram se opondo ao Fast Track apesar do bloqueio da mídia, acreditando ingenuamente que precisam saber o que está acontecendo com elas e ter voz nas decisões. Da mesma maneira, o NAFTA foi aprovado à revelia da oposição pública, que se manteve firme apesar do apoio entusiástico e quase unânime do poder estatal e empresarial, incluindo a sua mídia, que se recusou até mesmo a permitir que o principal adversário do tratado (o movimento organizado dos trabalhadores) se expressasse, enquanto o denunciava por diversos delitos inventados.

O Fast Track foi pintado como uma questão de “livre mercado”, mas não é bem assim. O mais ardente defensor do “livre mercado” se oporia radicalmente ao Fast Track se acreditasse na democracia, pois é disso que se trata. Fora isso, os acordos projetados dificilmente poderiam, mais do que o NAFTA e o GATT/OMC, ser qualificados de acordos de livre comércio, questão que já tivemos oportunidade de discutir.

A razão oficial do Fast Track foi expressa pelo Delegado da Representação Comercial dos Estados Unidos, Jeffrey Lang: “O princípio básico das negociações é o de que somente urna pessoa [o Presidente] pode negociar em nome dos Estados Unidos”.73 O papel do Congresso é apenas endossar, e o do público, ficar olhando – de preferência para o outro lado.

O “princípio básico” é bastante real, mas seu alcance é pequeno. Vale para o comércio, não para outras questões: direitos humanos, por exemplo. Aqui o princípio é oposto: deve-se dar aos membros do Congresso todas as oportunidades de assegurar que os Estados Unidos mantenham seu índice de não-ratificação de acordos, um dos piores do mundo. As poucas convenções que chegaram ao Congresso ficaram anos aguardando votação, e as que chegaram a ser sancionadas foram sobrecarregadas de condições que as tornam inoperantes nos Estados Unidos; não são “auto- executáveis” e possuem ressalvas específicas. Comércio é urna coisa; tortura e direitos das mulheres e crianças, outra.

Ao construir a sua política de direitos humanos para a China, o governo deve ter se lembrado do instrutivo conselho de urna missão militar de Kennedy à Colômbia: “Quando necessário, executar ações paramilitares, de sabotagem e/ou terroristas contra comunistas conhecidos” (termo que abrange camponeses, sindicalistas, ativistas de direitos humanos etc.). Os alunos aprenderam bem a lição, colecionando o pior recorde de direitos humanos da década de 1990 no hemisfério, com assistência e treinamento militar cada vez maior dos Estados Unidos.

Há dois séculos, na principal democracia da época, Oliver Goldsmith observou que “a lei oprime os pobres, os ricos fazem a lei” – a lei na prática, isto é, independentemente do que digam as belas palavras. Esse princípio continua válido.

Quando a corporativização das sociedades capitalistas de estado ocorreu há um século, em parte como resposta às enormes deficiências do mercado, os conservadores – uma estirpe quase extinta hoje em dia – se opuseram a esse ataque com base nos princípios fundamentais do liberalismo clássico. E com justa razão. Poderíamos relembrar a crítica de Adam Smith às “sociedades por ações” do seu tempo, particularmente quando à administração era concedido um certo nível de independência; e também a sua atitude em face da corrupção inerente ao poder privado, à presumível “conspiração contra o público”, em sua visão mordaz, quando os homens de negócios se encontram para almoçar, que dirá quando constroem entidades de direito coletivo e suas alianças recíprocas, com direitos extraordinários outorgados, apoiados e reforçados pelo poder de estado.

Há poucas surpresas aqui. Os criadores do sistema econômico internacional do segundo pós- guerra defendiam a liberdade de comércio, mas também a regulação do capital; essa foi a estrutura básica do sistema de Bretton Woods, de 1944, incluindo a Carta do FMI. Uma das razões para isso era o temor (bastante plausível) de que a liberalização do capital financeiro obstaculizasse a liberdade de comércio. Outra era o reconhecimento de que ela seria uma poderosa arma contra a democracia e o Estado do bem-estar, que tinha um enorme apoio popular. A regulação do capital permitiria aos governos implementar políticas monetárias e fiscais e sustentar programas sociais e de pleno emprego sem o temor da fuga de capitais, conforme assinalou na época o negociador dos Estados Unidos, Harry Dexter White, com a aprovação de seu colega britânico, John Maynard Keynes. O livre fluxo de capitais, ao contrário, criaria o que alguns economistas internacionais chamam de um “senado virtual”, no qual o capital financeiro altamente concentrado impõe as suas próprias políticas sociais sobre populações refratárias e pune governos dissidentes com a fuga de capitais.90 Os supostos de Bretton Woods prevaleceram largamente durante os anos 1950 e 1960, a “Época de Ouro”, com seus elevados índices de crescimento da economia e da produtividade e ampliação do contrato social. Esse sistema foi desmantelado por Richard Nixon com o apoio da Grã-Bretanha e, mais tarde, por outras grandes potências. A nova ortodoxia institucionalizou-se no âmbito do Consenso de Washington. Seus resultados se coadunam muito bem com os temores dos criadores do sistema de Bretton Woods.

O Economist revela ainda outros problemas. Questões ecológicas e trabalhistas, que “no início mal apareciam”, estariam se tomando difíceis de suprimir. Está mais difícil conter os paranóicos e catastrofistas que “querem inserir padrões elevados de trabalho e de proteção ambiental a serem respeitados pelos investidores estrangeiros”, e cujos “intensos ataques, disseminados por uma rede de sites da Internet, têm deixado os negociadores inseguros a respeito da forma como devem agir”93. Uma possibilidade seria ouvir os anseios do público. Mas essa hipótese não é mencionada: é excluída por princípio, como antagônica à própria essência do negócio.

É importante que a população em geral procure descobrir o que está sendo preparado para ela. O empenho do governo e da mídia em manter tudo encoberto, exceto para o seu “público interno” oficialmente reconhecido, é certamente compreensível. Mas essas barreiras já foram superadas por ações públicas vigorosas e podem ser superadas outra vez.

“Este é o lugar onde os governos ‘conspiram em privado’ contra os seus grupos internos de pressão, diz um ex-funcionário da OMC”. Se as muralhas forem rompidas, a OMC e outras organizações secretas dos ricos e poderosos poderão se transformar em “um alegre campo de caça para interesses especiais”: trabalhadores, agricultores, pessoas preocupadas com a segurança social e econômica, com a segurança alimentar e com o destino das gerações futuras, além de outros componentes marginais extremistas que não entendem que os recursos só são eficientemente utilizados quando orientados pelo lucro a curto prazo para o poder privado, ajudado por governos que “conspiram em privado” para proteger e aumentar o seu poder.

É supérfluo acrescentar que os lobbies e grupos de pressão que estão despertando tanto medo e consternação não são o Conselho de Assuntos Internacionais dos EUA, “advogados e homens de negócios” que estão “escrevendo as regras da ordem global” e similares, mas a “voz pública” que está “invariavelmente ausente”.

A “conspiração em privado” vai muito além dos acordos comerciais, é claro. A responsabilidade do público em assumir custos e riscos é, ou deveria ser, conhecida dos observadores como o que seus acólitos gostam de chamar de “economia capitalista de livre iniciativa”. No mesmo artigo, Uchitelle relata que a Caterpillar, que recentemente usou o seu excesso de capacidade produtiva no exterior para derrotar uma greve no país, transferiu 25 por cento da sua produção para o estrangeiro e pretende aumentar as vendas desde o exterior em 50 por cento até 2010, com a ajuda dos contribuintes norte-americanos: “O ExportImport Bank desempenha um papel significativo na estratégia [da Caterpillar]” , com “empréstimos a juros baixos” a fim de facilitar a operação. Os empréstimos do banco já representam quase dois por cento da receita anual de 19 bilhões de dólares da empresa e aumentarão com os novos projetos que vêm sendo elaborados para a China. Esse é um procedimento operacional típico: os conglomerados multinacionais geralmente buscam apoio em seus Estados nacionais para serviços essenciais.99 “Em mercados realmente duros, de riscos elevados e grandes oportunidades”, diz um executivo da Caterpillar, “precisamos realmente ter alguém nos apoiando no canto do ringue”, e os governos – especialmente os poderosos – “sempre terão mais influência” que os bancos e maior boa vontade para oferecer empréstimos a juros baixos, graças à liberalidade do contribuinte desavisado.

O comando deve permanecer nos Estados Unidos, de modo que as pessoas que contam estarão próximas de nossos segundos no canto do ringue, podendo desfrutar de um estilo de vida apropriado, diante de uma paisagem mais amena: os barracos onde mora a força de trabalho estrangeira não atrapalharão a vista. Lucros à parte, essa operação proporciona uma formidável arma contra os trabalhadores que ousam levantar a cabeça (como ilustra a recente greve) e que fazem a sua parte pagando pela perda de seus empregos e pelas armas aperfeiçoadas da guerra de classes. E, mais importante, tudo isso melhora a saúde “da economia da carochinha”, que se apóia no “aumento da insegurança do trabalhador”, como dizem os especialistas.

No conflito em tomo do AMI, as linhas não poderiam ter sido traçadas com maior firmeza. De um lado estão as democracias industriais e seus “públicos internos”. Do outro, as “hordas de vigilantes”, “interesses especiais” e “extremistas marginais” que exigem transparência e controle público e que ficam aborrecidos quando os parlamentos apenas endossam os acordos secretos da conexão estatal-privada de poder. As hordas enfrentavam a maior concentração de poder do mundo, provavelmente de toda a História: os governos dos Estados ricos e poderosos, as instituições financeiras internacionais e os setores financeiro e industrial concentrados, incluindo os conglomerados do setor de comunicação. E os elementos populares venceram – apesar dos seus minúsculos recursos e de uma organização tão limitada que somente a paranóia daqueles que exigem o poder absoluto pôde perceber o seu resultado nos termos que acabamos de analisar. Esta é uma conquista extraordinária.

Mesmo sabendo que o poder e o privilégio com certeza não vão descansar, as vitórias populares devem ser inspiradoras. Elas ensinam lições sobre o que se pode conquistar mesmo quando a desigualdade das forças em luta é tão bizarra quanto à do confronto em torno do AMI. É verdade que são vitórias defensivas. Mas elas impedem, ou pelo menos adiam, o enfraquecimento ainda maior da democracia e a transferência de mais poderes para as mãos das tiranias privadas em rápido processo de concentração, que querem administrar os mercados e se constituir num “Senado virtual” que dispõe de diversos meios de frustrar o desejo popular de usar as formas democráticas em benefício do interesse do público: a ameaça da fuga de capitais, a transferência das unidades de produção, o controle da mídia e outras formas de coação. Devemos prestar muita atenção ao medo e ao desespero dos poderosos. Eles compreendem muito bem o alcance da “arma definitiva” e só esperam que aqueles que buscam um mundo mais livre e justo não adquiram essa mesma compreensão e a coloquem efetivamente em uso.

Crítica à Praxeologia

mises

Tudo começou com uma publicação de um evento sobre a Escola Austríaca no grupo da UDESC. Fui provocado a dar uma posição crítica à praxeologia. A praxeologia não é uma ciência. Mas, seus defensores querem crer que seja. É quase uma religião, pois querem também nos empurrar goela abaixo.

Porém, iniciarei me apresentando. Para quem não sabe, fui estudante na UDESC na década de 90 e professor substituto na década seguinte. Dei aulas de programação em C e fui orientador de trabalhos acadêmicos. Portanto, não sou formado em economia, ciências sociais ou política, muito menos sociologia ou filosofia. Sou formado em Processamento de Dados. Especializado em Gestão de Projetos. Sou empreendedor, professor, analista de sistemas, programador. Trabalho, sempre que posso, em ações sociais. Sou também um apaixonado por conhecimento e, leio e estudo tudo nas áreas sociais, econômicas, políticas e filosóficas. Ao ler, formulo melhor minhas opiniões. Analiso e critico com argumentos válidos.

Antes da crítica propriamente dita à praxeologia, é importante uma revisão histórica do que ocorreu e me motivou a escrever este texto. Li o livro “Ação Humana” de Ludwig von Mises há cerca de um ano e pouco, e como não sou um historiador ou metódico no sentido acadêmico, não fiquei marcando passagens ou criando resenhas. Apenas o li para entender melhor o liberalismo. Inicialmente eu comecei a ler Adam Smith, mas seu livro “A Riqueza das Nações” é tão antigo e obsoleto que procurei um livro mais atual e, o livro de Mises, me pareceu mais relevante.

Li-o em pouco mais de um mês. A leitura é fácil, apesar de suas mais de mil páginas. O autor passa a maior parte do tempo tentando desqualificar o historicismo e o socialismo e, relatando como seria a sociedade perfeita através do livre mercado e estado mínimo. Hoje, estou terminando de ler o livro de Smith, pois este é considerado o pai do Liberalismo, então, por mais ultrapassado que seja seu livro, ele possui um conteúdo histórico que não deixarei de obter. Não irei aqui neste relato, mencionar ou defender o Comunismo, Socialismo ou escritores como Marx ou outros filosóficos ou sociológicos. Irei me restringir às máximas da praxeologia do liberalismo clássico de Mises. Não li os outros autores da Escola Austríaca. As críticas ao comunismo e ao socialismo eu as farei em outro artigo.

O liberalismo defendido por Adam Smith teve sua época e sua razão de ser. Não irei comentar a respeito de “A Riqueza das Nações” porque ainda não o li por completo. Estou iniciando o livro II. O caso aqui é, comentar sobre a praxeologia de Mises em “Ação Humana”. Como eu o li faz mais de um ano, precisei revisitá-lo para escrever este artigo. Dada esta introdução, irei me posicionar exclusivamente sobre o livro de Mises e sua “praxeologia”. E, para efeitos práticos e, para que este artigo não se torne um tratado, irei me restringir a apenas ao tema levantado e questionado para mim pelo sr. Marcos Valadares.  Ao final da crítica, irei comentar de forma civilizada, como sempre faço, as tentativas feitas por este sr. de me desqualificar.

Por definição, liberalismo tem a ver com liberdade. Como sou adepto da liberdade, gosto do liberalismo neste termo. No termo da minha vida pessoal. Na minha vida particular eu sou liberal. Dei uma educação liberal às minhas filhas, sem deixar, é claro, de pontuar seus deveres e direitos, bem como analisar, se compadecer com os mais necessitados e atuar fortemente nos aspectos sociais de nossa comunidade.

Agora vamos ao campo social, ao Estado. Vamos falar do liberalismo clássico na área comum, na sociedade. Na relação entre empresas e comunidade. Aí sou um crítico do liberalismo. Mas, ainda sim, consigo enxergar e até concordar com boas ideias de desregulamentação, por exemplo, para micro e pequenas empresas, e trabalhadores em geral (FGTS e INSS). Para proteger este nicho de empresas e trabalhadores, o liberalismo é uma doutrina válida, precisamos desregular a vida das pessoas mais simples, reduzir impostos, taxas e contribuições das micro e pequenas empresas, bem como do trabalhador assalariado, que por definição, são os que mais necessitam de apoio do Estado.

Também não vou aqui desqualificar meu oponente. Não irei rechaça-lo ou chamá-lo de burro, idiota e mentiroso, como ele o fez comigo durante todos seus comentários. Não! Não irei questioná-lo se ele leu mesmo o livro (como o fez comigo) ou apenas reproduz parte do conhecimento ali exposto. Não irei chamá-lo de “burro” por que ele defende o liberalismo, e nem usufruirá de seus benefícios. Isso não faz ninguém ser burro ou idiota. Não! Pode ser inocência, aspiração política ou econômica, mas também pode ser cretinice. Se for cretinice, o que não acredito, se for cretinice, este texto de nada terá validação para ele. Os cretinos sabem que estão errados e não se consertam, pois estão ganhando com isso. Portanto, considerá-lo-ei um ser inocente.

Alguém que realmente não conhece os efeitos práticos do que defende. Creio que, nunca administrou uma empresa, nunca participou da vida pública e nem mesmo deve ter formação em economia. Então, não estou aqui para desconstruí-lo através de ofensas. Isto fica para os fascistas de plantão, sejam da esquerda ou direita. Meu negócio está no campo das ideias. Também não vou defender comunismo, socialismo, intervencionismo ou nacionalismo barato. Irei me opor ao que li e consigo contestar. O grande segredo do liberalismo de Mises é também sua maior falácia: A PRAXEOLOGIA. Vamos a ela.

Em seu livro “Ação Humana”, Mises escreve na página 23: “Toda decisão humana representa uma escolha. Ao fazer sua escolha, o homem escolhe não apenas entre diversos bens materiais e serviços. Todos os valores humanos são oferecidos para opção.” E continua: “Nada daquilo que os homens desejam obter ou querem evitar fica fora dessa ordenação numa escala única de gradação e de preferência.”

Mises só se esquece de uma coisa. Toda ação humana de um indivíduo depende da sociedade onde ele vive, seus aspectos sociais e culturais. Sempre nos convém duvidar de tudo, não sem razão. Vide crise de 2007/2008. O mercado livre constrange à ação humana. Na economia de mercado livre, o dinheiro é a fonte de riqueza e poder. Uma entidade acima de tudo e de todos.

O mercado livre é capaz de comandar a ação humana em benefício de uns poucos. Vejamos o que ocorreu no Brasil: corrupção pública e privada, chantagem, manipulação de leis, compra de opiniões, votos… E não acontece só no Brasil. Não é exclusividade nossa. Veremos um mal exemplo de um país rico mais adiante.  Portanto, o conceito da PRAXEOLOGIA por si só é falho, pois ignora o contexto social/cultural. Ao ignorar a história, a meritocracia reforça as desigualdades. Não há ação humana sem observar o ser-humano e o meio onde vive.

Um adulto na África, por exemplo, na Somália, não tem acesso aos mesmos recursos de um adulto na Inglaterra ou EUA. A decisão humana não representa uma escolha de fato para um africano, não seria a mesma escolha se ele morasse em um país rico. Portanto, a praxeologia é uma falácia. O próprio Mises reflete isso no final do livro, página 995: “A ação humana jamais poderá produzir uma satisfação completa; serve apenas para reduzir parcial e temporariamente o desconforto.”.

E na página 999 ele cai na real e admite de fato que sua “ciência” é falsa: “A liberdade de o homem escolher e agir sofre restrições de três tipos. Em primeiro lugar, estão as leis físicas a cujas inexoráveis determinações o homem tem que se submeter se quiser permanecer vivo. Em segundo lugar, estão as características e aptidões congênitas de cada indivíduo e sua inter-relação com o meio ambiente; tais circunstâncias, indubitavelmente, influenciam tanto a escolha dos fins e a dos meios, embora nosso conhecimento de como isso se processa seja bastante impreciso. Finalmente, existe a regularidade das relações de causa e efeito entre os meios utilizados e os fins alcançados; ou seja, as leis praxeológicas, que são distintas das leis físicas e fisiológicas.”.

Mesmo admitindo ao final do livro que praxeologia não é uma ciência, mesmo assim, ele insiste em tratá-la como tal, inclusive dizendo que a praxeologia possui leis. Inacreditável como o autor insiste em sua falácia. Mais inacreditável é ver jovens e adultos em um país em desenvolvimento como o nosso cair neste conto de fadas.

Feito a crítica, vejamos o que realmente defende o sr. Marcos Valadares. Vejamos como ele tenta me desqualificar, não por que eu sou uma pessoa sem estudos, mas pelo simples fato de eu ter críticas válidas ao liberalismo austríaco ou até mesmo à economia mainstream. Até o FMI tem suas críticas ao liberalismo. E, considero que quem as defende, tal como uma religião, é pouco informado da realidade do mundo e da realidade político-econômica que existem entre os países. São normalmente teóricos e acadêmicos, sem nenhum compromisso com as coisas reais.

No relato de Marcos Valadares verifica-se a introdução da censura e tentativa clara de me desmoralizar. Diz ele:

Marcos Valadares:

– O pensamento econômico é para ser universal, a Escola Austríaca se chama assim por ser onde ela surgiu o país Áustria, não se trata se uma escola nacionalista, por sinal, o nacionalismo é o último refúgio dos idiotas que por não conseguirem se sentir bem por si mesmos, que precisam se sentir bem pela obra do que acontece por parte de outras pessoas numa linha imaginária na qual nasceram por motivos aleatórios. Por sinal, atualmente a maioria dos pensadores da Escola Austríaca são de outros países da Europa como Alemanha e Espanha, ou então dos Estados Unidos e até mesmo da Argentina.

Aqui ele tenta subverter o que eu disse, introduz o termo “idiota” e situa por onde anda os escritores da escola austríaca, como se eu não soubesse. Depois, ele tenta explicar como é o sonho de privatização da escola em questão:

Marcos Valadares:

– Privatizações podem ser de vários jeitos, austríacos costumam defender abertura de capital e distribuição das ações por entre os funcionários. Quanto a leilões, eles não tem nenhum tipo de discriminação por nacionalidade e nem são o tipo defendido tradicionalmente por austríacos. Ninguém aqui está dizendo que se deve privatizar empresas para estrangeiros, apenas que não importa a nacionalidade. Mais, estamos dizendo que as ações delas devem ser distribuídas por entre os funcionários.

Então ele não percebe que esta ideia de “privatizar para os funcionários” é muito parecida como “apropriação dos meios de produção pela classe operária”. Como não irei entrar na questão marxista, deixo para o leitor a análise e livre interpretação.

Também não entende que, em um país em desenvolvimento, com baixa poupança, não há recursos para investimento, o que deve ser adquirido nos mercados estrangeiros. Portanto, qualquer privatização no Brasil inclui dinheiro estrangeiro. Não estamos vendendo as estatais para grupos brasileiros, vendemos para grupos estrangeiros, muitas vezes com dinheiro nacional (via BNDES), mas o lucro do negócio vai para fora e o prejuízo fica conosco. Não há vantagens para os indivíduos locais.

A vantagem sempre é de quem compra, por preço baixo, o que não conseguimos administrar por conta da nossa própria incompetência. E, por incompetência de uns, julgamos ser um negócio ruim, então colocamos à venda. Se o negócio de fato fosse ruim, ninguém compraria. Se compram, é porque é um bom negócio e dará excelentes lucros. A solução, portanto, não é privatizar. É criar meios transparentes para minimizar a corrupção, desburocratizar e dar um choque de gestão (sem interferência politiqueira) para que uma estatal possa ser lucrativa, como era e é a EMBRAER e a Vale do Rio Doce (ambas foram privatizadas a preço de banana e davam excelentes lucros). Alguém ganhou muito com essa brincadeira e não fomos nós.

Não sabendo debater ideias, ele tenta me comprar aos fascistas.

Marcos Valadares:

– Vou postar um vídeo do Mussolini defendendo o que você defende, apenas aguarde. Você quer algo mais extremista do que um nacionalista?

Triste argumento, meu caro. Olhe-se no espelho. Amar minha pátria, amar o Brasil, não faz de mim um ultranacionalista fascista. Sou um cidadão preocupado com o meu país, com a América Latina e com todos os povos que sofrem perseguições.

Marcos Valadares:

– Liechtenstein tem como Príncipe que governa o país um economista formado que segue os princípios da Escola Austríaca.

Aqui ele quer dar uma demonstração de um país que usa os métodos da escola austríaca: Liechtenstein. Para quem não conhece, é uma monarquia com pouco mais de 35 mil pessoas, isso mesmo, vou repetir: 35 mil pessoas. É menor que um bairro em Joinville. É como se fosse o bairro Aventureiro. Não dá nem para comparar. Triste saber que a única referência que ele pode me dar foi uma monarquia aonde rola solto lavagem de dinheiro. Talvez, por isso sejam ricos. A falcatrua começou. Agora vem o pior:

Marcos Valadares:

– O Brasil deveria ser dividido em mil pedaços cara. Para você saber qual é o plano, dividir o mundo inteiro em pedacinhos. Eu por mim botava fogo nela em praça pública. (Falando da Constituição Brasileira).

Então, foi ele que me comparou aos fascistas? Prega a separação do Brasil, botar fogo na constituição. Só isso aí pode complicar a vida dele com a Justiça. Não sei se ele sabe, mas são ideias inconstitucionais. Não debato com um democrata. Muito menos com um liberal. Ele se mostra o que é de fato: um separatista e tresloucado. O patriotismo aqui é zero. E nem estou falando de nacionalismo, mas apenas de patriotismo. Amor à nação? Amor ao Brasil? Não! Aqui há apenas a escuridão total e completa de alguém que só enxerga seu umbigo. Não é holista sua visão, mas de um imediatismo puro e simples. Eu diria canalha. Mas não vou dizer. Quer a saída não pela luta, mas pela entrega. Não existe nele a ação humana, existe uma entrega humana e de recursos de tudo o que temos em função de algumas benécies. Benécies? Não há benécies. Então ele continua a falar sobre Liechtenstein. Vejamos o que ele diz:

Marcos Valadares:

– Liechtenstein é muito mais país do que o Brasil, é pequeno, mas é bom. Para você, Victor Vargas de Andrade, já que você é tão repetitivo e se recusa a qualquer entendimento e prefere ignorar a questão de que a aplicação de idéias depende de grupos de interesses, geralmente bem mal intencionados, vai um negócio num nível mais adequado para a sua compreensão: https://www.youtube.com/watch?v=cPVmBeu6iNw Sonegaremos? Sim. Sonegaremos… Num nível bem baixo e direto: https://www.youtube.com/watch?v=m2MjkhQJOtQ  Hino Oficial Anarcocapitalista. Créditos: Ideias extremamente radicais. O fim dela em relação ao estado. Liechtenstein está cada vez melhor, a Escola Austríaca não é uma escola de esquerda para destruir países, muito pelo contrário, ela torna pequenos territórios em grandes lugares. O Império Austro-Húngaro seguia, o que acabou com tudo foram as guerras mundiais. Não é isso que valida uma escola, o que valida se trata da qualidade dos seus trabalhos, trabalhos esses que você não leu. O que faz uma escola predominar não é a qualidade, mas sim a força dos grupos de interesses, que em nada se preocupam com qualidade, mas sim com interesses. E digamos que nacionalismo é doce para empresários lobbystas. Para políticos partidários então, muito doce. Legal, assim consigo me exilar em Liechtenstein e ficar mandando vídeos incitando separatismo de lá para cá como um herói. É um princípio do direito internacional a Livre Determinação dos Povos. Por sinal, o que há de pior na sociedade são os comunas, não os fascistas nacionalistas.

Vou parar por aqui, pois neste trecho, além defender um país, cuja prática de riqueza é a lavagem de dinheiro, ele consegue alinhar a ideia de sonegação de impostos, anarcocapitalismo (hã?) e separatismo. Tá de brincadeira? Anarcocapitalismo é outra lógica absurda que eles insistem em formular. Mal sabem eles que não dá para conciliar anarquismo e capitalismo. Incitar a sonegação, separatismo… Ficou feio. Com esse tipo de pessoa não dá para conversar, debater então é pior. E, olha que eu tentei. Fui educado até o final. Mas não dá. Além de querer me classificar de burro, idiota, mentiroso e fascista, o que ele demonstrou é a falta de capacidade de diálogo no campo das ideias. Faltou-lhe humildade, inteligência e um espelho, para ver que no fundo, o que ele diz para mim, é o que ele é.

E termino parafraseando a última oração do livro de Mises para dizer que, caso o liberalismo realmente ocorra de fato no mundo, ou seja, caso o mercado seja 100% livre de regulação, aí sim, estaremos aniquilando a sociedade e a raça humana.

Ps.: Não corrigi os erros de português do sr. Marcos Valadares. Nem escrever corretamente ele sabe. Discutir economia então…

Prof. Victor Vargas

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Almirante Othon: minha prisão interessa ao sistema internacional

Libertado pela segunda vez, o almirante Othon rebate acusações e conta a saga da tecnologia nuclear nacional.

 Almirante Othon e a ultracentrífuga idealizada por eleAlmirante Othon e a ultracentrífuga idealizada por ele.

Pouco antes de ser libertado da prisão na Base de Fuzileiros Navais de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, na quarta-feira 11, pelo Tribunal Regional Federal da 2a Região, o almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, 78 anos, encaminhou a CartaCapital as respostas às questões da entrevista a seguir.

Segundo o advogado Fernando Augusto Fernandes, o seu cliente, que é considerado o Pai do Programa Nuclear Brasileiro, é inocente de todas as acusações que levaram à sua condenação a 43 anos de reclusão pela Lava Jato, na ação penal que investiga supostos crimes de corrupção, lavagem de dinheiro, embaraço a investigações, evasão de divisas e organização criminosa na construção da usina nuclear de Angra 3. Como é comum na operação, chama atenção Fernandes, um “ouvi dizer” pronunciado por um delator premiado bastou para mandar à cadeia e com pena recorde na Lava Jato, só equiparável àquela do ex-governador Sérgio Cabral, um pesquisador e inventor que dedicou a vida ao País e à alta tecnologia nacional. “O almirante Othon de fato recebeu cerca de 3 milhões de reais quando era presidente da Eletronuclear, não por ato realizado na presidência da empresa nem relacionado à obra de Angra 3, mas por um estudo feito anteriormente em que empenhou seu conhecimento científico. O detalhe fundamental está aí”, sublinha Fernandes. “Para constituir crime de corrupção, teria de haver a indicação, pelos delatores, de algum ato que ele tenha realizado como presidente da Eletronuclear, ou anterior a isso, na forma de promessa, que gerasse alguma vantagem. Não existe”, acrescenta o advogado.

A carreira em prol do País, as honrarias que lhe foram conferidas no Brasil e no exterior, a importância estratégica das suas descobertas e a truculência dos inquisidores, que o levaram a uma tentativa de suicídio na cadeia, são narradas abaixo pelo almirante.

CartaCapital: A que atribui a existência das acusações que lhe são feitas?

Othon Luiz Pinheiro da Silva: Não tenho dúvida de que, no seu processo inquisitório sobre os empreiteiros para conduzi-los à delação premiada, o
Ministério Público da força-tarefa de Curitiba fez todo esforço para vir à baila
o meu nome. Perguntavam especificamente sobre a minha eventual
participação. O “ouvi dizer” do Danton Avancini ( diretor da Camargo Corrêa,
autor de delação premiada) foi a consequência desse direcionamento
inquisitivo, pois estavam em pauta apenas as licitações da Petrobras.

A quem interessa a sua condenação a 43 anos de reclusão?

Certamente, interessa ao sistema internacional preocupado com o
fortalecimento de um dos países integrantes dos BRICS. Os brasileiros
transnacionais, muito provavelmente, ficaram satisfeitos com o meu processo
e a minha saída do cenário. Considero como brasileiros transnacionais
aqueles que, embora tenham nascido neste belo país, gostariam de ser
cidadãos de outros países, em particular dos Estados Unidos. Não dão
importância aos grandes problemas e desafios nacionais, não se preocupam
em resolvê-los e, às vezes, em proveito próprio, não se importam em agravá-
los.

Como resumiria a importância do seu trabalho para o País?

Fui o gerente-coordenador do programa de desenvolvimento
tecnológico que assegurou ao Brasil, com esforço nacional, o domínio das
tecnologias de todos os aspectos estratégicos da energia nuclear. Coordenei
simultaneamente dois grandes projetos denominados pela Marinha, na fase
sigilosa, de Ciclone e Remo. São dois desenvolvimentos diferentes: o
primeiro implicou a viabilização, com tecnologia nacional, do enriquecimento
isotópico de urânio e de todas as demais etapas do ciclo do combustível
nuclear. O segundo consistiu no desenvolvimento e instalação nuclear para
submarinos, incluindo a fabricação, no Brasil, de todos os equipamentos e
componentes necessários. Para garantir a qualidade da instalação de
propulsão nuclear, foi realizado um programa de testes e verificação
experimental sem precedentes na história tecnológica brasileira. Em
nenhuma outra nação a mesma pessoa gerenciou simultaneamente esses
dois projetos, ambos com sucesso. Nos outros países, as Marinhas trataram
apenas do desenvolvimento da propulsão nuclear. Na diretoria da
Eletronuclear, gerenciei a definição do mais moderno programa de construção
de centrais nucleares e armazenamento de rejeitos. Esse programa provocou
grande impacto no cenário internacional. Uma evidência disso é o fato de eu
ter recebido, em um mesmo dia, na sede da Eletronuclear, as visitas do
subsecretário de Energia dos Estados Unidos e do ex-primeiro-ministro da
Rússia e presidente da empresa estatal de energia atômica Rosatom, Sergey
Kiriyenko.

Os valores envolvidos nos pagamentos arrolados pela acusação são
atípicos para o tipo de consultoria que o senhor costuma prestar?

Se forem considerados atípicos é por terem sido muito mais baratos.
O estudo inovador Um Porto de Destino para o Sistema Elétrico Brasileiro
interpreta as peculiaridades do sistema elétrico do País difíceis de ser
entendidas. Implicou transformar matematicamente as vazões de todos os
rios nacionais, levando em conta sua variação temporal, na vazão de um
único rio hipotético. O mesmo estudo foi feito transformando o estoque de
água existente em todos os reservatórios das hidrelétricas nacionais em um
único reservatório hipotético. Esse único reservatório hipotético constitui o
estoque regulador de energia elétrica do sistema elétrico nacional. O estudo
analisou o consumo de energia brasileiro, que vem aumentando, e
estabeleceu hipóteses sobre o crescimento dessa demanda no futuro.
Examinou a utilização da energia das fontes alternativas e demonstrou a
necessidade de construção de termoelétricas nucleares ou que usam carvão
combustível para, eventualmente, aumentar o estoque regulador de energia e
minimizar a utilização de termoelétricas que utilizam óleo e gás como
combustível e que conduzem a altos preços da eletricidade. O preço cobrado
por esse estudo foi de 3 milhões de reais, os mesmos referidos na data de
entrega do relatório, em dezembro de 2004. Se compararmos esse preço
com os valores cobrados pela equipe de ingleses que modelou o sistema
elétrico brasileiro na década de 1990, concluiremos que foi muitíssimo baixo.
Além de que, diferentemente dos ingleses, que transplantaram para o Brasil
soluções similares às utilizadas na Inglaterra, onde o sistema é quase 1 OOo/o
térmico e controlado pelo homem, no sistema elétrico brasileiro a maior parte
da energia é proveniente de hidrelétricas e fontes renováveis que sofrem as
variações que a natureza impõe. Um Porto de Destino para o Sistema Elétrico
Brasileiro preconiza a construção de centrais nucleares para evitar o aumento
abusivo dos preços da eletricidade e estabilizar o sistema. Nos trabalhos de
consultoria por mim realizados nos 11 anos na Aratec (empresa de
consultoria), o valor do homem-dia de consultoria foi sempre dentro da
mesma faixa. Os altos valores pagos pela eletricidade pelos brasileiros em
2017 comprovam o estudo por mim realizado em 2004.

O senhor foi chamado para explicar à Justiça os valores faturados por
sua empresa de consultoria?

Durante o julgamento, em dezembro de 2015, expliquei os valores que
foram questionados. Os representantes da força-tarefa do Ministério Público
não demonstraram a menor vontade de entender e um deles considerou Um
Porto de Destino para o Sistema Elétrico Brasileiro um pequeno estudo sem
relevância que o réu usava como desculpa. No julgamento, tive a sensação
de que havia uma sanha condenatória com motivações diferentes das
acusações apresentadas.


O Laboratório de Geração Nucleoelétrica e o restante do complexo da Marinha em lperó, São Paulo, concebidos por Othon

Quais as principais evidências do seu reconhecimento científico nacional
e internacional acumuladas na carreira?

Os resultados atingidos nos projetos do ciclo do combustível nuclear e
na propulsão nuclear constituem evidências indiscutíveis. O general Douglas
MacArthur dizia que na guerra não há substituto para a vitória. Sempre achei
que na engenharia e no desenvolvimento científico e tecnológico não há
substituto para o atingimento das metas e dos resultados. Recebi a Grã-Cruz
do Mérito Nacional, assim como Cesar Lattes, brasileiro indicado para o
Prêmio Nobel, e o brigadeiro Casimiro Montenegro Filho , fundador do Instituto
Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e precursor da indústria aeronáutica
brasileira. Fui agraciado também com o título de Pesquisador Emérito do
Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares, em São Paulo, concedido a
poucos ao longo da história do lpen. Recebi ainda a medalha Carneiro
Felippe, da Comissão Nacional de Energia Nuclear. Quando me aposentei da
Marinha, fui convidado por Pai Schiffer, então um alto dirigente da Agência
Internacional de Energia Atômica, em Viena, para trabalhar nessa instituição.
Não aceitei porque não seria ético. Eu havia trabalhado por muito tempo no
programa nuclear que desenvolvia aspectos estratégicos brasileiros e era
considerado, na sua fase inicial, secreto pelo governo do País. Considerava
incongruente trabalhar na AIEA, que inspeciona as atividades nucleares de
todos os países. Fui convidado também pelo internacionalmente renomado
doutor Hans Blix, diretor-geral da AIEA de 1981 a 1997, para proferir palestra
sobre a história da energia nuclear no Brasil desde os seus primórdios. Além
disso, recebi convite para representá-lo em um seminário mundial de energia
nuclear na Bulgária. A convite de Bernard Bigot , presidente da Comissão de
Energia Nuclear e Energias Alternativas da França, visitei as instalações de
Grenoble, onde estavam em curso as principais pesquisas francesas sobre o
desenvolvimento de componentes para aproveitamento da energia solar. Com
Bigot conseguimos o acordo Brasil-França para o desenvolvimento de
componentes e aplicação da energia solar usando o silício de boa qualidade
existente no Brasil.

Quais as oportunidades de desenvolvimento científico, como consultor, à
sua disposição no Brasil e no exterior ao longo da sua carreira?

No segundo semestre de 1994, logo depois do término do tempo de
serviço como vice-almirante no serviço ativo da Marinha, após recusar o
convite da AIEA, realizei o concurso para pesquisador sênior do Instituto de
Pesquisas Energéticas e Nucleares (lpen), elaborado pela Comissão
Nacional de Energia Nuclear, e classifiquei-me em primeiro lugar na
competição com 16 Ph.D. formados em universidades de outros países. A
CNEN, contrariando a lógica, não me empregou. Como a área nuclear no
Brasil, naquele clima de globalização da década de 1990, estava fechada
para mim, pelos meus pensamentos nacionalistas conflitantes com o clima
“globalizante” do período, resolvi abandoná-la e iniciei as atividades como
pequeno empresário. Durante 11 anos , não me faltaram trabalhos de
engenharia e consultoria. Um deles foi o mencionado Um Porto de Destino
para o Sistema Elétrico Brasileiro. Nesse período, o trabalho que mais me
empolgou foi um encomendado pela Socicam, proprietária dos terminais
rodoviários de São Paulo e Rio de Janeiro, entre vários outros. Tratava da
concepção de um sistema nacional para transporte de cargas que usasse
como célula mater contêineres e explorasse ao máximo a utilização de todos
os meios de transporte do País, com ênfase na navegação de cabotagem,
subutilizada. Em 2001, a pedido do professor José Goldemberg,
representante da sociedade civil no Conselho Nacional de Política Energética,
coordenei o trabalho de um grupo de engenheiros e técnicos da Fundação da
Universidade de São Paulo, que analisou a viabilidade de retomada da
construção da Usina Nuclear Angra 3. O estudo consumiu nove meses de
trabalho, foi muito elogiado pelo professor Goldemberg e considerado de
melhor qualidade do que os trabalhos equivalentes realizados pelas
empresas lberdrola, da Espanha, e Electric Power Research lnstitute (Epri),
dos Estados Unidos.

Por que a inovação introduzida pelo senhor no setor nuclear é importante
para o País?

Sozinho, nada realizei. O destino deu-me a sorte de compor uma
miríade de pequenas e muito competentes equipes, cujo trabalho deixou o
Brasil em patamar igual ou próximo dos países mais desenvolvidos na área
de energia nuclear. Quando o Alto-Comando da Marinha me designou para
desenvolver o submarino nuclear brasileiro e o combustível necessário para
tal, eu era o único oficial com especialização nuclear. Todo o esforço inicial foi
compor equipes e concentrar o trabalho no desafio principal, que era o
enriquecimento isotópico de urânio. Fizemos uma opção arrojada na época,
que era a tecnologia adotada para as ultracentrífugas, de minha concepção.
Ainda como aluno de pós-graduação no MIT, comecei a conceber a
ultracentrífuga logo depois de assistir a uma aula do emérito professor doutor
Manson Benedict, o primeiro diretor do Departamento de Energia Nuclear
daquela universidade, que, no final, fez um comentário jocoso: “Os brasileiros
acreditaram e compraram da Alemanha esse método. O Brasil gastou mais
de 1 bilhão de dólares desenvolvendo e construindo em Resende uma usina
piloto que usava a técnica jet nozzle e nunca enriqueceu nem 1 miligrama de
urânio”. Com as ideias que tinha sobre ultracentrífugas, a pequena e
maravilhosa equipe que tive a sorte de constituir projetou e construiu três
ultracentrífugas no Brasil com tecnologia de vanguarda. O trabalho foi iniciado
no segundo semestre de 1979 e, em setembro de 1982, produzimos uma
pequena ampola de urânio enriquecido e outra de urânio empobrecido. Foi o
maior evento tecnológico do Hemisfério Sul naquele ano. Com um avançado
método de gerenciamento de pesquisas que desenvolvi e denominei Sistema
Matricial Dinâmico de Gerenciamento de Pesquisas, o aumento do número de
equipes e o auxílio da comunidade científica brasileira, o País atingiu a
maturidade na tecnologia nuclear. Nada como uma equipe dedicada
trabalhando em um ambiente saudável para atingir os resultados. Quando fui
transferido para a reserva, em 1994, a Coordenação de Projetos Especiais da
Marinha tinha um quadro de 600 engenheiros e físicos que, somados às
equipes do lpen, totalizavam uma elite de 980 engenheiros e físicos de alto
nível. Isso foi muito importante para o País.

Como a sua descoberta repercutiu na comunidade científica
internacional?

Em 1987, o governo brasileiro, em cerimônia oficial no Palácio do
Planalto, comunicou oficialmente o domínio, pelo País, do ciclo do
combustível nuclear. Até aquele momento, as atividades tinham caráter
sigiloso. Essa comunicação oficial teve grande repercussão internacional. Em
8 de abril de 1988, com a presença do então presidente da Argentina Raúl
Alfonsín e do presidente José Sarney, foi inaugurado o Centro Experimental
de Aramar, em lperó, no estado de São Paulo – onde funcionava o primeiro
módulo da usina de demonstração industrial de enriquecimento de urânio -, e
assinado um tratado com a Argentina, que previa a inspeção mútua das
instalações nucleares dos dois países. Esse evento teve a mais ampla
repercussão na comunidade científica internacional. O pequeno discurso que
proferi na ocasião foi o cume da minha vida profissional e da minha
realização pessoal.

Como as realizações e o potencial do Brasil na área nuclear são
encarados no exterior?

O domínio da tecnologia de enriquecimento de urânio e de todas as
etapas do combustível, mesmo tendo optado por não produzir artefatos
nucleares, tem um valor estratégico militar muito grande. As grandes reservas
uraníferas brasileiras e o domínio da tecnologia têm um significado
econômico ainda não percebido pela maior parte dos que trabalham no setor
energético brasileiro. Nas reuniões internacionais sobre energia nuclear e em
uma reunião para a qual fui convidado na Energy Research and Development
Agency (Erda), nos Estados Unidos, em 201 O, tive a clara percepção de que
as nossas pródigas reservas de urânio e a capacidade tecnológica de utilizá-
lo são consideradas muito importantes internacionalmente .


O protótipo em tamanho natural do submarino nuclear com projeto encomendado a Othon, no complexo de lperó

No momento da sua prisão, a quais atividades de estudo e pesquisa
necessárias ao seu trabalho de consultor o senhor vinha se dedicando
?

O trabalho mais entusiasmante era um sistema de armazenamento de
combustível nuclear queimado nos reatores, por mim concebido, que estava
sendo coordenado pelo brilhante doutor Sergio de Queiroz Bagado Leite, à
frente de um grupo de engenheiros da Eletronuclear. Acredito firmemente que
a adoção desse novo sistema de armazenamento de rejeitas nucleares de
alta atividade, um dos maiores desafios tecnológicos da humanidade,
colocará o Brasil na vanguarda mundial dos países que utilizam a energia
nuclear. Esse sistema seria patenteado em nome da Eletronuclear. A segunda
atividade de estudo e pesquisa que eu desenvolvia era conduzida sob a
coordenação do doutor Leonam Guimarães e tratava dos estudos de
localização das novas centrais nucleares que o Brasil certamente necessitará
construir. Esse estudo especificava as características das usinas nucleares e
os requisitos que deveriam preencher para evitar acidentes nucleares. Foi
concebido para permitir a execução do programa por grupos privados, mas
assegurando baixo preço da eletricidade produzida e o controle estatal
brasileiro. A terceira atividade de pesquisa era coordenada por mim utilizando
as minhas folgas, férias e fins de semana e tratava do término do
desenvolvimento da família de hidroturbogeradores integrados para muito
baixas quedas-d’água, da qual detenho a patente.

Que balanço faz do seu tempo de atividade na Marinha?

A maior parte do tempo foi muito empolgante. Fui promovido a
segundo-tenente do Corpo da Armada em dezembro de 1960 e até 1963
operei embarcado no contratorpedeiro Mariz e Barros. Em 1963, sem
planejamento prévio, tive sucesso no concurso para cursar Engenharia Naval
na Escola Politécnica de São Paulo. De fevereiro de 1966 até maio de 1975,
trabalhei como oficial engenheiro no Arsenal da Marinha, período
interrompido em 1969 para estagiar por um ano na Gibb & Cox, em Nova
York, na época a maior empresa projetista de navios de guerra no mundo,
que na década de 1930 criara os destróieres classe Cassin, da qual derivou o
contratorpedeiro Mariz e Barros. Fiz estágios de quatro meses no
Philadelphia Naval Shipyard e de três meses no estaleiro Vosper Thornycroft,
em Southampton, na Inglaterra. De 1966 a 1975, quis o destino que eu fosse
escalado para gerenciar os maiores desafios que o Arsenal da Marinha
recebeu nesse período, considerado a sua época áurea, onde o nível de
atividade foi similar àquele vivido de 1935 a 1945, que englobou a Segunda
Guerra Mundial. Ainda como capitão de corveta, fui chefe da Divisão de
Oficinas e responsável pela manutenção dos navios da esquadra por dois
anos, época em que todos eles estiveram prontos para operar. Em março de
1973, fui designado chefe da Divisão de Construção Naval para construir os
navios de patrulha fluvial que até hoje operam na Amazônia, além de uma
dúzia de embarcações de desembarque para fuzileiros navais e seis
embarcações de desembarque de carga geral para fuzileiros. Gerenciei ainda
a implantação, no Arsenal da Marinha, do programa de construção das
fragatas Independência e União, que continuam a operar. Fui o oficial que
gerenciou o maior número de embarcações e navios construídos naquele
Arsenal no Pós-Guerra. Aos 35 anos, como capitão de corveta, tive a
oportunidade de cursar Engenharia Nuclear no Massachusetts lnstitute of
Technology (MIT). Em dois anos e 11 meses no MIT, completei 226 créditos
estudantis, cerca de 50°/o a mais do que os alunos que cursam o Ph.D.
completam. Ao regressar do MIT, em fevereiro de 1978, o diretor-geral do
Material da Marinha determinou que eu fizesse um estudo e um relatório
sobre a possibilidade de desenvolver submarinos com propulsão nuclear no
Brasil. O relatório foi entregue no fim de maio de 1978. A Marinha resolveu
fazer um estudo maior tendo como referência o meu relatório. Para minha
surpresa e perplexidade, em outubro de 1988 o almirantado ( equivalente ao
Alto-Comando no Exército e na Aeronáutica) decidiu iniciar o programa de
desenvolvimento da propulsão nuclear para submarinos. Recebi duas folhas
que, na realidade, eram o resumo do meu relatório e se constituíram na
minha missão nos anos em que permaneci no serviço ativo na Marinha, até
agosto de 1994. Para evitar que a natural burocracia administrativa naval
impedisse de desenvolver o programa, o almirantado me licenciou da Marinha
e alocou na Divisão de Estudos Avançados do Centro Técnico Aeroespacial,
em São José dos Campos. O projeto da Marinha era secreto e eu tinha
ordem expressa de não conversar com qualquer oficial da Marinha, só
poderia responder às perguntas que os almirantes quatro-estrelas do Alto-
Comando fizessem, somente se eles perguntassem e àquilo que
perguntassem. O almirante Maximiano Eduardo da Silva Fonseca assumiu o
cargo de ministro da Marinha em 1979 e eu tinha a determinação para, em
companhia do almirante Mário Cesar Flores, autor do estudo do Estado-
Maior, uma vez por mês relatar diretamente ao ministro o andamento do
programa. Iniciamos a pesquisa e o desenvolvimento com zero recursos
financeiros e zero equipe. Congregar uma das maiores equipes da história
tecnológica brasileira, conseguir recursos em outros órgãos do governo
federal além da Marinha, obter o apoio dos governos de São Paulo e da
comunidade científica nacional e gerenciar o desenvolvimento tecnológico foi
muita emoção, maior do que qualquer outro oficial engenheiro terá
oportunidade de ter e que dificilmente outros tiveram nas outras Marinhas do
mundo, pois tive de trabalhar na viabilização do combustível nuclear e no
desenvolvimento da propulsão em um país com indústria ainda em
desenvolvimento. Resumindo, a minha vida na Marinha foi fascinante e
desafiadora, pois estive sempre atuando na linha de frente da tecnologia.

Alguns daqueles que trabalharam com o senhor o descrevem como
um idealista. Qual conduta sua provavelmente alimentou essa conceituação
por parte de ex-colegas?

Fui criado ouvindo meu pai, um médico do interior que me ensinou
que vivemos em um lindo e formidável país, com um mix racial que, com
ensino e aporte tecnológico, poderá muito contribuir para um mundo melhor.
Meu procedimento e minha conduta foram sempre acreditar que não sou
dono da verdade. Acredito que podemos aprender com todos, todos os dias.
Uma boa parte dos companheiros era tão ou mais idealista do que eu.

Como o senhor avalia a sua situação psicológica? Qual a sua rotina
diária?

A sentença foi dada em tempo recorde, depois da apresentação da
defesa por meu advogado, e parece que já estava quase pronta. Ao conhecer
o seu teor, que no meu modo de ver foi injusto, e, se as acusações fossem
verdadeiras, ainda assim a sentença seria desproporcional tanto para mim
quanto para minha filha, vivi dois dias em que tentei, em revolta, renunciar à
vida. (Nota da redação: Ana Cristina da Silva Toniolo foi condenada a 14 anos
e 1 O meses por ser sócia do pai na consultoria que emitiu a nota fiscal do
estudo encomendado pela Andrade Gutierrez .) Depois, felizmente, me
aprumei e passei a querer intensamente viver, pois entendi que o suicídio por
revolta pela pena infligida à minha filha poderia ser interpretado como
confissão de culpa. Na parte da manhã, antes da cirurgia a que tive de me
submeter no dia 21 de setembro, fazia exercícios no cárcere e, nos 60
minutos previstos para banho de sol, andava de 5 a 6 quilômetros. Decidi
escrever um livro que relata a história da energia nuclear no século passado,
em particular na América Latina. Descrevo a saga que foi o programa de
desenvolvimento tecnológico no Brasil, em especial o esforço da Marinha e
seus obstáculos políticos. O livro foi manuscrito, pois não tenho acesso a
computador e, quando puder , vou digitar e fazer pequenas correções. Tomei
gosto por escrever e, no futuro, pretendo produzir outros livros. Ler e ouvir
notícias completam o meu tempo.

O que o senhor espera da Justiça brasileira?

Espero que deixe de ser direcionada por um pequeno grupo – onde
existe a possibilidade de participarem alguns brasileiros transnacionais – e
realmente procure aplicar a Justiça. Causou-me muita tristeza ver atuando
como auxiliar de acusação, pela Eletrobras, um advogado indicado pela
empresa estrangeira Hogan & Lovells, muito ativo. Também muito me
entristeceu o juiz repetir várias vezes na sentença o eventual prejuízo da
Eletrobras por possível desvalorização das ações na Bolsa de Nova York.
Como o preço de construção de Angra 3, por megawatt instalado, era menor
do que construções equivalentes nos Estados Unidos, França e Finlândia, só
perdendo para o preço praticado na China, acredito que um dia isso será
levado em consideração pela Justiça brasileira. A grande melhora de
desempenho da Eletronuclear, transformando-a em uma das melhores
centrais nucleares do mundo, certamente contribuiu positivamente para o
preço das ações da Eletrobras, mas isso também não foi levado em
consideração na sentença.

Fonte: CartaCapital

Por Carlos Drummond, da Carta Capital

NOAM CHOMSKY E O GOLPE SUAVE NO BRASIL

Nós também temos uma pergunta agora sobre o Brasil, eu gostaria que você comentasse sobre o golpe no Brasil.

Noam Chomsky:
– Bem, o que aconteceu no Brasil é às vezes descrito como um golpe geralmente um golpe suave, não é um golpe militar do tipo que os EUA ajudaram a iniciar em 1964. A base para isso foi iniciada pela administração Kennedy e foi realizada pouco depois do seu assassinato.

Instituiu-se o primeiro estilo neo-nazista, um estado de segurança nacional no hemisfério e foi mais tarde uma praga espalhada pela maior parte do hemisfério da América, atingindo a América Central na década de 1980.
Esse foi o golpe de 1964, o atual não é um um golpe militar, é uma espécie de golpe parlamentar que removeu a figura política que não foi envolvida no escândalo de corrupção para enriquecimento pessoal, a única política livre dessas acusações, ao contrário das as pessoas que estavam votando para impugná-la.

Quase todos estão sob cargas severas e significativas de grande corrupção para os seus próprios benefícios, então é um golpe suave, de fato, o Supremo Tribunal do próprio Brasil determinou que as taxas oficiais contra Dilma Rousseff não são cobranças legítimas, mas o impeachment passou e o governo atual de Temer é, na verdade, devo dizer muito da minha informação sobre isso vem da minha esposa Valeria, que é brasileira. Ela me disse o que está acontecendo no Brasil através dos jornais.

O governo atual institui políticas extremamente reacionárias claramente tentando descartar o progresso e as realizações que foram feitas pelo PT, o Partido dos trabalhadores, nos últimos 15 anos. Agora, o PT é culpado de muitos crimes e fizeram coisas horríveis, mas eles também realizaram políticas bastante benéficas para muitos brasileiros.

A população agora está sendo revertida. O novo governo, é todo branco, feito por homens e para um país diverso, as políticas são bastante assustadoras, é claro, fortemente apoiado pelos Estados Unidos como parte de um esforço para reverter o progressivo desenvolvimento ocorrido na América Latina nos últimos 15 anos e eu deveria dizer que a esquerda desses países têm muito para responder pois fizeram muitas coisas erradas, totalmente errado, mas nada justifica o golpe suave aconteceu.

Veja o vídeo em:

 

De Boas Intenções O Inferno Está Cheio

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CAPÍTULO 1: A Reunião Do Faz De Conta
Temer, Renan e Maia se reúnem no domingo em rede nacional e falam contra a anistia do caixa 2.

CAPÍTULO 2: Os Bastidores Do Poder
Na segunda, ao invés de ir a Chapecó apoiar as famílias da tragédia, como faria todo estadista, Temer passou o dia ligando para Senadores para que fosse aprovada a PEC 55, a tal PEC do corte dos gastos por 20 anos, também chamada carinhosamente pelos opositores de PEC da Morte ou PEC do Fim do Mundo. Pois bem, inocente acreditar que o circo armado fosse para o nosso o bem.

CAPÍTULO 3: Na Calada Da Noite
Nesta madrugada foi votada e aprovada pelo Congresso Nacional a proposta das dez medidas contra a corrupção. Mas o que foi aprovado mesmo nesta madrugada de terça para quarta foi o AI-5 do Crime Organizado. A aprovação da proposta das #10Medidas contra a corrupção se transformou numa aberração incalculável e inimaginável: não foi aprovada a anistia do caixa 2, conforme prometido no domingo, pois isso era o pretexto para aprovar todo o resto. Na calada da noite, fizeram das propostas contra a corrupção um pacote a favor da corrupção, assim, na cara dura. É o jogo do vale-tudo. Das dez medidas originais, só quatro foram mantidas, e com modificações.

CAPÍTULO 4: 10 Medidas Pró-Corrupção Aprovadas
1. Rejeitaram que os acordos de leniência por parte das empresas pegas em corrupção fossem celebrados pelo Ministério Público.
2. Rejeitaram o crime de enriquecimento ilícito de funcionários públicos.
3. Rejeitaram o confisco dos bens no caso de enriquecimento ilícito.
4. Rejeitaram o “reportante do bem”, aquele cidadão que ao denunciar crimes de corrupção seria recompensado por isto.
5. Derrubaram as mudanças para dificultar as prescrições de penas, entre outras aberrações.
6. Rejeitaram os acordos entre defesa e acusação no caso de crimes menos graves. O objetivo era tentar simplificar os processos.
7. Rejeitaram o confisco alargado para que o criminoso não tivesse mais acesso ao produto do crime, para que não continuasse a delinquir e não usufruir do produto do crime.
8. Rejeitaram a responsabilização de partidos que previa a responsabilização dos partidos políticos e a suspensão do registro da legenda por crime grave.
9. Além de retirarem diversas propostas, os deputados incluíram outras, como a proposta de punição de juízes e membros do Ministério Público por abuso de autoridade.
10. Os procuradores ou promotores também estarão sujeitos a indenizar o denunciado pelos danos materiais, morais ou à imagem que houver provocado.

CAPÍTULO 5: Inocente Somos Nós e Ninguém Bateu Panela
O que a Câmara aprovou das #10Medidas e Senado aprovou com a PEC 55 visa apenas e tão somente manter e ampliar seus interesses políticos e privados. Simples assim. E de forma democrática e legal, pois demos a eles o poder através do voto. Inocente foram o MPF, o procurador Dalagnoll e todos nós. Inocente fomos nós ao pensar que o impeachment era para acabar com a corrupção e resolver a crise. E ninguém bateu panela.

CAPÍTULO 6: Está Tudo Dominado
Geddel formava com Eliseu Padilha, Chefe da Casa Civil, e Moreira Franco, Secretário Executivo, todos do PMDB, o trio de maior confiança de Temer. Geddel caiu ao pressionar o Ministro da Cultura (órgão extinto e depois recriado por Temer) para liberar uma obra embargada no centro histórico de Salvador, no qual era interessado. Temer e Padilha, ao que tudo indica, também pressionaram o Ministro Calero para favorecer seu protegido Geddel. Agiram todos por interesses pessoais. Romero Jucá, outro companheiro de PMDB, deixou o Ministério do Planejamento assim que foi pego em uma gravação tentando sabotar a Lava Jato. Votou ao Senado como líder do governo. Agiu por interesse pessoal. Renan, o Presidente do Senado propõe no um projeto de Lei para intimidar o Judiciário. Mais um político do PMDB agindo por interesses pessoais. Cunha, quando Presidente da Câmara, aceitou a denúncia de impeachment após o PT retirar o apoio a ele na Comissão de Ética. Outro político do PMDB agindo por interesses pessoais. Esses mesmos personagens que estão no poder hoje estavam no poder quando o presidente era Sarney, Collor, Itamar, FHC, Lula e Dilma. De uma forma ou de outra. Está tudo dominado.

CAPÍTULO 7: Minha Casa, Meus Investimentos E Meus Interesses Pessoais
Falando em interesses pessoais, lembremos que além de viver em um país democrático, nosso sistema econômico é capitalista. Mas não vou entrar no mérito que rolou esses dias na internet sobre a compra de imóveis do Minha Casa Minha Vida feito pelo procurador Dalagnoll. É normal que todos queiram prosperar. Essa é a lógica capitalista. Entretanto, não é uma questão de direitos apenas, é acima de tudo uma questão de privilégios e interesses pessoais. Em última instância é uma questão moral. Ou eu diria imoral, afinal o MCMV foi feito para pessoas de classes pobres ou quem ainda não possui imóveis. Não é o caso procurador. Mas, por vivermos em sociedade onde a vantagem pessoal está acima da vantagem coletiva, todos nós estamos procurando nosso lugar ao sol, nem que para isso tenhamos que empurrar e passar por cima de outros. E infelizmente, isso não é diferente para quem tem poder como empresários inescrupulosos, sonegadores de impostos e corruptos, procuradores, juízes, deputados, senadores e presidente da República. Cada qual tem seus princípios e interesses, e muito, muito poder. Essa parece ser a lógica e não há santos nesta história.

CAPÍTULO 8: Powerpoint Vende
Toda via, a crise aperta para o lado mais fraco. A PEC 55 prova isso. Não se iluda, ela é ruim, por mais que digam que é importante cortar os gastos públicos, isso vai além. É sempre assim: no powerpoint é lindo e o que é entregue é um monstrengo. O nome é lindo: 10 medidas contra a corrupção. na prática, deu no que deu. O nome é lindo: PEC do corte dos gastos. Daqui a vinte anos a gente conversa.

CAPÍTULO 9: O Pato E A Revolta
Em todas as crises há um pato. E há alguém que irá pagar o pato. Quem paga o pato sempre é o pobre e a classe média. É o lado fraco da balança. E no outro lado da balança vemos uma casta de políticos aprovando corte nos gastos sociais por 20 anos, medidas pró-corrupção e outra casta de funcionários públicos com salários acima do teto, benefícios obscuros e benesses desproporcionais ao que recebe o brasileiro médio. Isto faz qualquer um ficar revoltado ou resignado.

CAPÍTULO 10: Somos a Parte Interessada Ou A Parte Interesseira?
Como fomos criados, nossas experiências e vivência do mundo? Cada um de nós vê o mundo de forma diferente e reage conforme princípios e interesses. Por exemplo, uma dona de casa pode pensar que a PEC 55 é boa, pois precisamos economizar e cortar os gastos, e sua família não usa a escola pública e a saúde pública. Essa mesma dona de casa pode pensar que as propostas das 10 medidas aprovadas como foram são ruins pois ela é “contra a corrupção”, como todos nós. Já um estudante da escola pública ou um velhinho que precisa do SUS, serão contra a PEC 55 e também contra as medidas pró-corrupção aprovadas. O empresário será a favor das PEC 55 e contra as medidas pró-corrupção aprovadas. Já um político… Relembrando: cada um de nós reage as coisas conforme princípios e interesses. Depende de qual deles você coloca na frente. Quando eu coloco os meus princípios a frente dos meus interesses, eu serei contra a PEC 55 e contra as 10 medidas independentemente de quem seja eu: dona de casa, político, empresário, trabalhador, estudante, aposentado ou idoso. Mas isso não significa que sou contra o corte dos gastos ou a favor da corrupção. É porque eu tive o disparate de me informar e ler as propostas aprovadas. Sou parte interessada no assunto.

CAPÍTULO 11: O Poder Do Protesto
Não, eu não tenho poder. E nem você tem. Sozinhos não. Esse jogo não foi feito para um povo desunido ganhar. É o jogo do ganha-ganha da minoria contra o perde-perde da maioria. Os criminosos de colarinho branco vencem mais uma vez e a Justiça e o povo saem enfraquecidos. É o jogo de “O Povo Se Ferra”. Eles nos colocam uns contra os outros e saem ilesos. É militante de esquerda contra militante de direita e eles nem ao certo leram Karl Marx ou Adam Smith. São todos contra a corrupção e são a favor de uma escola e saúde de qualidade e brigam porque não possuem entendimento correto dos assuntos. Não somos nada assim. Não temos nada assim. Mas mesmo assim temos a voz. É a única coisa que temos. A voz. O grito. O protesto. Temos que ter a atitude de nos informar mais, ler mais, discutir civilizadamente mais. Falar. E não calar! Nossa Democracia será mais forte quando tivermos mais gente nas ruas, mais plebiscitos e referendos. Assim se constrói a Democracia. A não ser que queiramos a Anarquia ou o retorno à Ditadura. Creio que não estamos preparados nem para um e muito menos para o outro.

CAPÍTULO 12: Julgamentos Antes Dos Julgamentos
Neste momento estamos vivendo no Brasil uma passagem da nossa História de julgamentos morais e linchamentos públicos, vide o caso do quebra-quebra na casa do suposto dono do drone que provocou a torcida do Inter ou quando os policiais dão um trato nos estudantes e manifestantes contra a PEC 55 no Senado. Estavam lá no Senado, no estádio de futebol, mas quem estava na Câmara dos Deputados acompanhando a votação das 10 medidas? É muito interesse pessoal, ódio, sangue nos olhos, faca nos dentes. Enquanto ficarmos no “cada um por si” e “farinha pouca meu pirão primeiro” esquecemos a Nação. Conseguiram retirar da Presidência aquela que não teve nenhuma acusação de corrupção. Foi removida por uma questão administrativa, seu governo foi ruim, mas o que estamos vivendo é pior. Por isso eu, assim como muitas outras pessoas, não me sinto à vontade de fazer o mesmo. Não vou julgar ninguém. Neste momento eu só ouço, interpreto. Não quero ter razão. Eu quero PAZ.

CAPÍTULO 13: Somos Mais Que 11
Apesar da idolatrização a tantos procuradores e juízes, não sem seus méritos, diga-se de passagem, apesar de toda essa idolatrização, tenham certeza, não há salvadores da pátria, e ninguém está imune. Não somos perfeitos, não somos únicos, não somos especiais. Por isso precisamos uns dos outros, e precisamos cobrar de nós mesmos pois depende de nós. Somos nós quem devemos dar o primeiro passo. Não espere isso de nenhuma instância de poder. Comecemos por nós. Temos princípios e interesses. E quando falamos de construir uma nação, devemos colocar os princípios na frente dos interesses. Assim como todo o mundo do futebol se uniu em prol da Chapecoense e dos familiares mortos neste terrível acidente, temos que fazer o mesmo em outras instâncias de nossas vidas: temos que nos solidarizar com os outros e nos colocarmos em seus lugares. Como diz o próprio Dallagnol temos que “deixar de praticar as pequenas corrupções do nosso dia a dia, que acaba gerando tolerância com a grande corrupção”. E conclui “Atitude! Nós precisamos agir”.

O Fim do Mundo

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Ok, o mundo não vai acabar. Não hoje, mas o título é bom.

O que tem a ver o fim do mundo, a vitória de Trump nos EUA e o Brasil? O que nos afeta.

Trump nos afeta. Ele assusta. Ele pode detonar o mundo, mas não vai apertar o botão vermelho. Assim, a gente espera. Mas que ele abalou o mundo, abalou. Principalmente os mercados. Mesmo sem chegar perto do botão, ele já abalou, fez estremecer a todos no mundo. Então ele nos afeta. Suas ameças, creio, ficaram na campanha. Mas as promessas nos afeta como nação e humanidade.

Os estadunidenses possuem uma lógica diferente da nossa aqui no Brasil. Lá, o problema central é a segurança. Mas não medo de assalto, roubo, sequestro, o medo principal é o medo do terrorismo. O medo é do estrangeiro. Aqui, a preocupação é outra: é saúde, segurança, educação, merenda, buraco na rua, falta de saneamento, grandes obras de infra-estrutura… Mas temos ao menos duas coisas em comum.

A primeira é que lá, como aqui, muitos deixaram de votar, se abstiveram. No Brasil as abstenções, votos brancos e nulos giram em torno de 30-40% e subindo. Lá, onde o voto é facultativo, o índice de abstenções também é alto e cresce a cada eleição. A primeira conclusão é que ambos estamos insatisfeitos com a política e com os políticos. Estamos ou nos ausentando desse direito ou escolhendo pessoas novas, ditas não-políticas, super autoritárias, “pulso firme”, “mãos limpas”, grandes empresários, gente da mídia, famosa, rica e gente muito, muito duvidosa.

Outra coisa em comum é que a população em geral é conservadora e isso se comprovou tanto na eleição para presidente de lá como para prefeitos e vereadores aqui. E por fim notei o eleitor médio na verdade é medíocre, nada sabe sobre política e não consegue criar uma argumentação lógica. Não entende sobre ideologia e não é capaz de se identificar com uma.

Voltando ao fim do mundo, não sei o que é pior: Trump presidente dos EUA, Temer ou Bolsonaro no Brasil. Ok, o mundo não vai acabar. Não hoje, mas o título é bom.  😀

 

 

Ética, nossa relação com o trabalho e o eterno retorno.

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Como avaliamos um profissional através de números?

Esta pergunta pode ser respondida por gráficos, tabelas, metas atingidas etc. Por estes índices podemos averiguar sua produtividade e efetividade. As grandes e médias empresas utilizam métodos quantitativos neste processo, mas muitas vezes se esquecem de avaliar seus empregados através de uma metodologia qualitativa: a ética.

O modelo de negócio estabelecido no mundo caracteriza-se por atingir metas. Tais metas significam vendas. Vendas são o motor do negócio. Mas, um mundo em crise significa menos vendas. Menos vendas significam menos metas atingidas. Menos metas atingidas significam mais demissões. Mais demissões significam menos poder de compra. Menos poder de compra significa menos vendas. Menos vendas significam menos metas atingidas. Menos metas atingidas… Entendeu? É um ciclo. O eterno retorno da crise financeira.

E a empresa? E a corporação? E a organização? E o empresário? Onde fica o empresário do meio de produção? Fica preso em uma cilada. Se investir e a crise piorar ele pode quebrar a empresa. Se não investir e a crise terminar, ele estará atrasado para o mercado de demanda. Então, o que ele faz? Investe no mercado financeiro, compra ouro, ações, dólar, títulos, coloca o dinheiro debaixo da cama, paraíso fiscal… Investe o mínimo na empresa, ou nada, e demite parte do capital humano para não cortar na própria carne. E volta o ciclo. O eterno retorno de manter o establishment.

E o trabalhador? E o funcionário? E o colaborador? E o participante? Onde fica o participante do meio de produção? Fica preso em uma cilada. Se atingir a meta, mesmo em crise, pode ser demitido. Se não atingir a meta é bem provável que seja demitido. Então, o que ele faz? Ele mete a faca nos dentes, faz correr o sangue, vara noites, fins de semana, viagens, emails, whatsapp, relatórios, apresentações no Powerpoint, faz de tudo para atingir a meta. E aí, ao atingir, vai pra casa com seu salário magro, mas pensa “melhor que nada”. E, o pior é que ele está certo. Pouco é melhor que nada. Estar empregado é melhor que estar desempregado. Ainda mais em momentos de crise, demissões em massa e arrocho salarial. Essa é a regra do jogo: ou vai ou racha! E o que arrebenta é a tua tampa da caixa…

De manhã, ele se levanta volta cedo ao trabalho. Mais metas para serem atingidas, mais pressão, mais números, mais gráficos, mais noites sem dormir para terminar o relatório. Se precisar ele passa por cima de tudo e de todos para cumprir a meta, pois ele assumiu a meta. E uma meta dada é uma meta cumprida. Mas por fim, ele vai sendo consumido, sugado por um mundo que não é o dele. Já não tem tempo para a família, para os amigos, para o lazer. Férias são reduzidas e mesmo nas férias ele fecha negócios.

Mas ele é o cara! Ele atingiu a meta! Vai ganhar um bônus! Uma batedeira novinha! Uma geladeira! Um boné! Uma viagem! Uma placa! Um parabéns! Um destaque! Uma foto no mural! Tapinha nas costas! E volta pra casa com seu salário magro e pensa: “que legal, eu sou o cara, mas bem que eu podia ganhar uma promoção, uma salário melhor ou até mais participações nos resultados, quem sabe virar sócio… Mas, pensando bem, melhor que nada.”. E volta o ciclo. O eterno retorno do medo de perder o emprego e ser resiliente.

E um dia, ele acordará e perceberá que fora demitido, ou que se aposentara. Não fará mais parte do time, da equipe, da turma, do departamento. Ele terá apenas remédios para comprar, contas para pagar e uma homenagem emoldurada ou uma placa na parede. E volta o ciclo. Mas agora, já não terá medo de perder o que não tem. Terá apenas arrependimentos.

Então, neste momento, retorno à pergunta inicial: como avaliamos um profissional através de números?

Profissionais não são números, são pessoas. Eles não deveriam ser avaliados por metas atingidas, gráficos de produtividade, linhas de código produzidas, páginas digitadas, índices computáveis, ou quaisquer outros processos quantitativos de avaliação. Antes de tudo, elas devem e podem ser avaliadas por sua conduta, por seu compromisso, por seu esforço, por seu respeito, por sua liderança ou até mesmo por sua submissão. Ou seja, por suas atitudes e ética. As metas são só metas. Vendas são só vendas. Linhas de código são só linhas de código. Pois, afinal, sempre teremos outras metas, vendas e linhas de código para conquistar. Pessoas, não. Pessoas são para manter, abraçar, ajudar, colaborar, levar junto, estabelecer relacionamento, união.

Estamos longe de termos uma sociedade mais ética, mais justa e fraterna. Uma sociedade menos pensada no mercado e mais pensada no ser-humano e nas suas relações seja com o trabalho, com a natureza, ou entre nós mesmos. Estamos longe, mas um sonho não sonhado nunca se transforma em realidade.

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Victor Vargas